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Opinião

Os prazeres renovados

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Um dos companheiros de caminhada na orla, o Mário Jambo comemorou com um café da manhã o nascimento de sua filha, Vitória. Ele tem pouco mais de 50 anos e já tem dois filhos do primeiro casamento, mesmo assim ficou emocionado e enternecido com a presença na maternidade de sua ex-mulher e até de sua ex-sogra. A maioria dos ali presentes jamais voltará a ser pai e até pouco tempo atrás imaginava que outros prazeres e satisfações muito íntimas e pessoais, vivenciados na juventude -- algo assim como descobrir um autor e sua obra extraordinária --,jamais se repetiriam. Estava enganado. Embora os anos estejam passando e em algumas profissões, como a Medicina, ao invés de se reduzir a carga de trabalho, ela só faz aumentar, às vezes é preciso refletir e se constatar que ultimamente o seu tempo é quase todo tomado pelo trabalho, pelo estudo e outros compromissos e descobrir que a vida está passando e se esvaindo por entre os seus dedos. Fica-se tão envolvido por esta trama ardilosa que entra dia, sai dia,haja trabalho e quando chega a noite, logo após o jantar você já está cochilando e não vê nem o Jornal Nacional. Sua mulher nem reclama mais, já cansou; até aquele cineminha com ela no meio da semana para quebrar um pouco do desenfreado ritmo, desapareceu. No fim de semana, você já está tão cansado que, no máximo, na sexta-feira sai com a sua mulher pra tomar um vinhozinho, mas aí pelas 11 horas já está com o corpo pedindo cama. Resta-lhe a caminhada diária ao raiar do dia na orla com os amigos e a descontração das brincadeiras, mas, isto é suficiente? E você se angustia com coisas simples as quais você não tem acesso pelo ritmo de vida que adotou: os filmes passando nos cinemas e você no máximo os vê depois em um DVD. E as suas prateleiras cheias de livros, muitos que você comprou e ainda não leu e aqueles que você leu há muito, por eles tem veneração e sabe que jamais terá tempo para relê-los. Tem para compensar o neto João Pedro, um refrigério d?alma e, também recentemente descobri um novo e extraordinário prazer desta fase outonal da vida: estando em São Paulo com meu filho Marcel, este perguntou-me se já tinha lido a obra Fundação do Assimov, que ele soubera era um clássico.Assenti e fui à Cultura,achei o livro e ainda outro do Cortazar, Todos os fogos o fogo, que também tanto me deslumbrara mais ou menos na idade em que ele está hoje. Dei-os de presente ao Marcel, com a velada esperança que os leia com o mesmo deleite que os li. Assim, me proporcione tamanho prazer como se eu mesmo os estivesse lendo pela primeira vez. (*) É médico.

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