Opinião
Jo�o sem bra�o
Colegas de idade provecta interpelam-me por saber que este espaço tem voz ativa e opinativa, em nosso meio. E isso é bom. Dentre tantos reclamos, um tem me chegado com muita frequência e veemência. Há muito que se luta para obter estacionamento reservado e, mais importante, respeitado, para, além dos idosos, principalmente, os deficientes. Acho que o privilégio para os idosos, aos poucos, vai-se esvaindo na medida em que o País envelhece. Sua população torna-se menos reprodutiva, com índice de natalidade baixo e, com o avanço da medicina, uma maior perspectiva de vida. Com certeza, isso deverá mostrar o futuro censo. Então estaremos nos aproximando da Europa, onde essa prerrogativa não existe. Porém, enquanto nos é dada, devemos aceitá-la de bom grado. Estacionamentos em shoppings e supermercados, por exemplo, foram regulamentados por portaria oficial, o que para os idosos e os deficientes é motivo de júbilo. A dúvida que me chega é qual a razão de criar-se um cartão que identifique tais exceções. Explico: tem-se que ir à Transpal para solicitar um cartão plastificado, possivelmente com a indicação da excepcionalidade que, colocado no painel do carro, irá livrá-lo de uma multa, quando de uma fiscalização da SMTT. Como essa visita só se dará esporadicamente, quem evitará que filhos ou netos locupletem-se desse benefício? Como o cartão é solto dar-se-á o empréstimo para o mesmo ser usado em outro carro. E o beneficiário não é o veículo. Está aí uma oportunidade para quem gosta de levar vantagem, ou seja, dar uma de ?João sem braço?. E como está disseminado esse costume. Presenciei em supermercado, de bairro dito nobre, senhora de idade, entrar com um garoto de seus oito anos, possivelmente neto e, antes de iniciar suas compras, postar o jovem em uma das filas de caixa e instruí-lo para que deixasse passar quem antes dela chegasse. Após algum tempo, voltou a vovó com seu carrinho cheio e passou à frente de outros que ali já estavam. Qual lição deu a seu neto? Isto é o que assistimos diariamente ao dispormo-nos a sair de casa. Até a fila, a mais democrática criação do homem, tenta-se burlar. Mas os exemplos que vêm de cima encorajam seguidores para tais atos. Não é à-toa que, ao procurar em site de busca o porquê da expressão ?João sem braço?, herdada de Portugal, tem-se, em um dos links disponíveis, como símbolo maior desse costumeiro mal, um bonequinho sem braços com o característico rosto barbudo de conhecida personalidade política do Brasil. No caso, a mutilação é bem maior. (*) É bacharel em Economia.