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Opinião

Adoniran e Vinicius

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Com a repercussão que o atual período eleitoral permite, dois ícones da musicologia brasileira foram recentemente homenageados: Adoniran Barbosa e Vinicius de Moraes. Quase com mesmas idades ? diferença de três anos?, Adoniram completaria cem anos no último seis de agosto de 2010. A homenagem que lhe foi prestada tem a ver justamente com o seu centenário de nascimento. O poetinha, como VM era chamado, teve como foco sua ?reabilitação moral?, posto ter sido afastado do cargo de diplomata por suposta ?vagabundagem? (segundo o ex-presidente Figueiredo). No vale-tudo da eleição, houve até emocionado discurso do presidente Lula. Adoniran Barbosa e Vinicius de Moraes tinham tudo para jamais se encontrarem. O primeiro tem origem numa família muito pobre. Quase um iletrado, enfrentou imensas dificuldades, até para sobreviver. Moraes, se não era rico de berço, nunca comeu o que o diabo amassou. Adoniran viveu um pouco mais que seu parceiro em ?Bom Dia Tristeza?. Os cigarros tragados na boemia paulistana detonaram precocemente seus pulmões, impingindo-lhe incontornável limitação para cantar. O sugestivo uísque (depois, substituído por chás), que acompanhava o compositor, poeta, dramaturgo, cronista, cantor (nas horas vagas diplomata) e boêmio Vinicius de Moraes, danificou de forma irreversível seu maltratado fígado. Mas foi pelo coração ? suposto abrigo dos sentimentos - que sua vida se esvaiu. Seria cansativo desfilar as razões que os imortalizaram. Barbosa fazia o tipo despojado, no seu amassado terno de linho. Completavam o visual o bigodinho de malandro, o cigarro e o indefectível chapéu. Seu jeitão de jeca tatu escondia especial sensibilidade. Trem das Onze, um dos seus maiores sucessos, me fazem companhia desde a adolescência. ?Bom Dia Tristeza? e ?Iracema? não ficam atrás. Desnudo de beleza física apolínea, não obstante, Vinicius de Moraes era um grande sedutor. A propósito, uma amiga médica, que o assistiu durante um dos seus internamentos, ficou impressionada com a procissão de mulheres lindas (?as muito feias que me perdoem?), fazendo fila para disputar um carinho do irrequieto paciente. Eterno apaixonado, levou a sério e ao extremo o que escreveu em Soneto da Fidelidade: ?E assim, quando mais tarde me procure,/Quem sabe a morte, angústia de quem vive,/Quem sabe a solidão, fim de quem ama,/Eu possa me dizer do amor (que tive):/Que não seja imortal, posto que é chama/ Mas que seja infinito enquanto dure?//. (*) É médico.

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