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Opinião

Orla bela e transtornada

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A nossa orla da Pajuçara e Ponta-Verde é uma das mais bonitas do mundo e não tem igual em belezas naturais. Mesmo para quem a curte desde a infância, esta paisagem nunca deixa de ser um deslumbre pessoal diário, para os olhos e para a alma. O deslumbre começa ao amanhecer com as caminhadas, aí pelas cinco da manhã, seja como agora no inverno, quando a temperatura é amena e agradável, seja no nosso estorricado verão. Tá certo que as correntes marinhas, as chuvas e a mudança de temperatura da água do mar, lhe tiram um pouco do esplendor do azul esverdeado do verão... Mas, é só botar um calção e um par de tênis e começar a caminhar, vendo o sol nascer no horizonte, com seus reflexos nas águas, os bem-te-vis e os sanhaços cantando nos coqueiros e nos oitizeiros, as ondas quebrando lá no horizonte, e a brisa, que traz o odor do sargaço e as lembranças dos tempos e das brincadeiras da infância, que o mundo não poderia ser melhor e mais bonito. Mas, o mundo não é mesmo um lugar perfeito. Continua sendo razoavelmente tolerável, até durante o café da manhã com as primeiras notícias na televisão. Ele começará mesmo a ser o mundo agressivo, egoísta, individualista e injusto poucos minutos depois: quando saímos ainda pela orla, mas já congestionada pelos automóveis, pouco depois das sete horas da manhã. Vai-se mais ou menos civilizadamente até as proximidades dos Sete-Coqueiros, aí, já está tudo engarrafado. Os carros estão parados em filas duplas. Simplesmente porque alguns individualistas, os tais adeptos da lei do Gérson, que sempre querem tirar vantagem em qualquer circunstância ultrapassam apressadinhos pela direita e logo ali, alguns poucos metros na frente, como existem obstáculos na direita, eles vão dar uma forçada de barra, penetrar agressivamente na fila dos que respeitam a ordem natural das coisas e estão dirigindo como se estivessem em um país civilizado. Naturalmente, a cada vez que isto acontece, todos os carros, com exceção do espertinho mal-educado param e, a fila que poderia fluir lenta e calma, mas ininterruptamente, sem empecilhos e sem estresses, torna-se uma fila injusta, desnecessariamente lenta e estressante. O cenário que há poucos minutos atrás era só beleza, paz e tranqüilidade, perde o seu apelo: a harmonia do homem com a natureza é estraçalhada. E, por mais que se queira e se rogue aos céus, nunca em momento algum, se vê um único guarda de trânsito por aquelas belas paragens de Deus. Nem ali nem em lugar nenhum, são invisíveis, mas as multas injustas, palpáveis, pesadas e concretas, não param de chegar. (*) É médico.

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