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Ci�mes

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O ciúme traduz um forte sentimento de propriedade, de inquietude e temor de perda. Proteção excessiva sobre o objeto amado e demonstração de insegurança quanto à reciprocidade do afeto. Uma manifestação egoísta da nobre liberdade de amar. O célebre dramaturgo inglês William Shakespeare, em notável inspiração,o denominou de ?o monstro dos olhos verdes?, simbolizando nos gestos extremados do bravo guerreiro Otelo, a força destrutiva deste implacável sentimento. O esplendor da literatura francesa, em Anatole France, traça a distinção entre o ciúme do homem e da mulher. Revelação luminosa da diferente forma de amar e da maneira de sentir de cada um. A obra teatral de Racine revelou Fedra,exemplo da amante obsessiva e cruel, em conflitos com sua rival Aricie. A ciência penal,leciona Roque de Brito Alves, não oficializa o grau de distinção do ciúme do homem e da mulher, embora sejam diversas suas manifestações e o nível de suas reações. Ambos estão sujeitos à escala progressiva ? amor, ciúme, ódio e agressão. O ciúme também cogita ser um sentimento plausível, à medida que caracteriza uma louvável preocupação afetiva, em defesa da convivência. Um interesse de preservar os destinos das relações, suscetíveis das ameaças do tempo e das circunstâncias. A doutrina e os tribunais do País, ao se debruçarem sobre a questão humana do ciúme como motivação ao crime,analisam o grau de sua natureza e qualificação. A discussão deve ser conduzida em torno das circunstâncias de cada cenário descortinado. A previsão legal do motivo fútil, torpe ou do relevante valor moral ou social, ganha fascinante debate e argumentação. Enseja o reconhecimento de agravante ou atenuante penal. Projeta a definição de uma qualificadora ou de uma minoração da pena a ser aplicada. Os bons e valorosos amantes não fomentam discórdias nem cometem delitos. Procuram esgotar suas emoções e bebem até os últimos delírios das afeições. Inauguram novas motivações sentimentais em suas vidas e se alimentam da complexidade dos afetos. O sentimento do ciúme não delineia esperanças, vive de tormentas e pesadelos. Termina por conspirar contra o triunfo dos desejos ante a insegurança mortal das expectativas. O amor quer a liberdade dos gestos, a eleição das horas e o encanto da surpresa das promessas guardadas. (*) É advogado.

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