Opinião
Algumas reflex�es
Em junho de 2010, o Estado de Alagoas sofreu sua maior tragédia decorrida de evento da natureza, com força e poder de destruição jamais registrados. Dentre vários aspectos para reflexão, fixo-me em três: 1) não perdermos a memória do ocorrido; 2) discutirmos as escolas como local natural para abrigar os desabrigados; e 3) a oportunidade de reconstruir bairros ou cidades quase inteiras com um novo padrão sanitário. Numa palestra sobre o tema, o professor Geraldo Majela, da Faculdade de Arquitetura, lembrou da importância de não apagarmos a memória da cheia. Seria preciso registrar os níveis alcançados pelas águas, construir algum monumento que indique o nível atingido por elas, para que de forma perpétua ninguém duvide do ocorrido. A importância destas ações decorre da fragilidade da memória coletiva. O poeta colombiano Gabriel Garcia Marques em seu livro Viver para Contar, relatava à mãe almoços que lembrava ter tido com uma tia, quando sua mãe disse que isto era impossível, pois sua tia havia morrido antes dele ter nascido. É não esquecermos do que não pode ser esquecido. Em qualquer tragédia com desabrigados, a primeira providência é levar as pessoas para as escolas e imediatamente suspender as aulas. Num Estado que tem indicadores educacionais iguais aos nossos é aceitável suspender as aulas por mais nobre e urgente que seja o motivo? Claro que sei que lá se encontram espaços amplos, cobertos, com banheiros e copa. E daí? Saiu na impressa alguma declaração enfática, contundente, pedindo o reinício imediato das aulas? A maior prova de valoração da educação seria a luta incessante por colocar as aulas em curso o mais rápido possível. Que se construam pavilhões esportivos que possam abrigar os próximos desabrigados das futuras tragédias que ainda vão nos assolar. Nas escolas, não. Na reconstrução dos bairros e de nossas cidades está garantido que teremos uma infraestrutura mínima que inclua ruas pavimentadas, calçamento, serviço de água, serviço de recolhimento de esgoto, iluminação pública e serviço de telefonia? Ou iremos replicar a precariedade habitacional que a cheia destruiu? Este é o momento de exigir uma reconstrução que empurre para o passado a pobreza que a cheia desnudou. Se perdermos este ponto de inflexão, em que situação teremos força e apelo para mudarmos nossa história de ocupação ribeirinha? A tragédia nos levou casas e vidas. Que não nos leve a esperança de um futuro melhor. (*) É professor da Ufal.