Opinião
De dossi�s e lacraus
Parodiando Dorival Caymmi, como o amor, o dossiê não foi inventado por mim, nem por você, nem por ninguém. O dossiê acontece na vida, quando se está bem distraída... Por sinal, ACM, um outro baiano, para assustar os inimigos ? adorava falar em dossiês demolidores. Marcou época. Até que um dia foi desmoralizado violando o painel de votação do Senado. Os tempos mudaram. Quem era estilingue virou vidraça. E passou também a preparar dossiês, a violar contas bancárias, a bisbilhotar declarações de rendas de inimigos e/ou críticos. Foi assim com generais discordantes, com familiares de adversários políticos. Diferentemente do finado ACM, que assumia e ameaçava, essa turma nega a paternidade das transgressões. Aproveito para contar uma fábula. Um lacrau parou às margens de caudaloso rio. Precisava atravessá-lo, mas não tinha como, posto ser grande risco lançar-se nas tormentosas águas sem saber nadar. Matutava sobre as limitações dos seres quando deu pela presença de uma doce rãzinha, que a poucos metros esquentava-se ao sol. Aproximou-se sorrateiro e quase esbarrando no batráquio assim falou: ?Bons dias, linda jovem. Eis que me encontro numa grande enrascada e, nesse momento, só uma criatura de sua competência e generosidade poderá me socorrer?. Surpreendida com a inopinada visita, a rãzinha pensou o que poderia fazer para ajudar a tão medonha criatura, curiosidade logo satisfeita. ?Estou em viagem de lazer. Preciso atravessar esse braço de rio para atingir meu destino, a casa de uns primos, que há muito não vejo. Nos meus cálculos, aqui deveria existir uma ponte, justamente para facilitar os cidadãos. Já estava a ponto de desistir quando vislumbrei seu charmoso perfil. Daí eu pensei: bem que poderia montar no dorso desta alma bondosa e ela me levará à outra margem com rapidez, conforto e segurança?. Desconfiada e conhecendo o histórico de virulência dos escorpiões, a rã mostrou-se inclinada a colaborar com o interlocutor, mas precisava saber de suas reais intenções. ?Qual é a vantagem de picá-la durante a travessia? Você morrerá do meu veneno e eu afogado?. Convencida, a nobre rãzinha deixou-se montar e saltou na correnteza. No meio da jornada, sentiu mortal ferroada rasgando as tenras carnes. Antes do último suspiro, reuniu forças e disse: ?Por que fez isso? Louco, morrerei e você irá junto?. ?Perdão, amiga, ferroar é da minha natureza?. É mais ou menos como preparar dossiês e violar imposto de renda... (*) É médico e professor da Ufal.