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Os s�bios em Marechal

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Em Berlim existe uma estranha e belíssima praça, sem árvores, fontes ou bancos, provavelmente sem similar no mundo. Em seu solo tem uma janela de vidro grosso da qual se observa em baixo uma biblioteca, onde não se vê um único vivente e cujas paredes estão repletas de estantes onde não existe um só livro disponível. Foi nessa praça que os nazistas queimaram todos os livros que puderam. Todos os que gostam de um livro, tiveram a sua iniciação, de uma forma ou de outra. Ninguém começou já lendo Joyce ou Kiergergaard; como a maioria comecei com os gibis, depois veio o Coyote, do J. Malorqui e com o tempo os autores mais densos, o que não invalida que querendo relaxar, não se leia um bom policial, como o Maigret do Simenom. Hoje se pode comprar tudo pela internet, mas um bom sebo ainda vale. Na opinião de Carlos Drumond de Andrade um sebo é insuperável. Em sua crônica O Sebo exulta com a inauguração de um no Rio de Janeiro. Corre para lá, descreve a desarrumação inevitável da casa, onde se misturam carcomidas obras raras e enfadonhos relatórios estatais. Descreve os frequentadores, que usam roupas escuras e desgastadas como a mercadoria exposta; falam baixo e tem as pontas dos dedos fibrosadas pela poeira dos livros envelhecidos. Leva um velho livro e recebe a bronca da mulher ao chegar em casa, meio escondido: ? Trouxe mais uma porcaria pra casa!?. Afirma ao fim que visitou não um cemitério, mas o território livre do espírito, contra o qual não prevalecerá nenhuma opressão. São tantos os depoimentos singulares sobre a importância dos livros que toda esta Gazeta não os caberia, mas alguns são emblemáticos. Pennac registra: ?A virtude paradoxal da leitura é nos abstrair do mundo para nele encontrar algum sentido?. Bacon afirmava que se quer amigos, procure os bons livros, amigos verdadeiros que não bajulam nem dissimulam. Nestes dias, lá na bela Marechal Deodoro, às margens da majestosa lagoa, Carlito Lima, este multifacetado homem de festas e de livros, está promovendo a Flimar, feira de grandes autores nacionais, internacionais e locais. Fazia tempo, desde os velhos festivais de verão que por ali não se via tanta riqueza e alegria para o espírito. Heine, antes de Hitler, premonitoriamente afirmou: ?Onde se queimam livros cedo ou tarde se queimarão homens?. A festa do Carlito parece combinada com a extraordinária decisão do STF que evitou a censura aos humoristas que gozam os maus políticos. Na eterna e gloriosa luta pela liberdade de expressão, historicamente os livros tem sido os seus maiores baluartes. (*) É médico e professor da Uncisal.

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