Opinião
Anivers�rio
De propósito ou não, José Joaquim de Oliveira, esse comerciante de algodão quase desconhecido, parece ter marcado, logo no dia 22 de julho, quando se reuniu com os primeiros negociantes para fundar a 9ª entidade do gênero no Brasil, a data de fundação da Associação Comercial de Maceió para 7 de setembro de 1866. O primeiro presidente, de personalidade forte, emprestou aos seus confrades seu espírito libertário ao comprar, com os primeiros recursos, a carta de alforria de uma escrava de 10 meses, chamada Benvinda. Mesmo assim, um ano depois estava fora da presidência por desentendimentos com compradores de algodão. Voltou um ano depois para implantar contratos de fiscalização que evitava fraudes. Mas não quis mais cargo nenhum. Diria que seu maior legado, além da própria associação que criou, foi transmitir aos seus pares uma relação saudável com o regime escravista. Razão talvez, para que a abolição em Alagoas tivesse um rumo menos traumático que o da cultura cafeeira em São Paulo. Hoje, com o seu 31º presidente e 144 anos de existência, a entidade mantém vivo o legado maior de seu fundador: a preservação da liberdade como bem maior da humanidade. Criada para ser uma entidade representativa das classes conservadoras locais, reunindo as mais altas personalidades do cenário econômico alagoano, como o próprio barão de Jaraguá, optou pelo espírito democrático, abrindo suas portas a todas as classes empresariais e aos profissionais liberais. Mantendo-se fiel à defesa não só dos seus associados, como da sociedade, sempre que esta é afrontada na sua dignidade. Sua sede, o Palácio do Comércio de Maceió, é um exemplo de como a força do associativismo é capaz de realizar verdadeiros milagres: a construção do prédio. Imagine, nos tempos de hoje reunir empresários para pedir ao governador para cobrar impostos. A história não tem precedentes. Liderados pelo tesoureiro Carlos Broad, foi encaminhada uma lista de assinaturas ao então governador, monsenhor Capitolino de Carvalho, que sancionou a Lei 905 que permitiu a cobrança de 100 réis para a construção do prédio, de 3.589 m². É bom lembrar que o assentamento da pedra fundamental foi realizado pelo governador Fernandes Lima, com uma colher de pedreiro de ouro. Considerada de utilidade pública nas instâncias municipal, estadual e federal, a Associação Comercial de Maceió é muito mais que uma entidade representativa da sociedade civil organizada. É, acima de tudo, uma instituição, cujas ações estão muito além do seu tempo. (*) É escritor.