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Opinião

A anormalidade do normal

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Júlio Cortazar tem entre seus contos dedicados ao absurdo do cotidiano, um que parece encomendado pela realidade brasileira: Marini, comissário de bordo de uma empresa de aviação que sobrevoa o mar Egeu, certo dia,tem sua atenção tomada por uma pequena ilha, justamente quando no avião o relógio marcava meio-dia. Três vezes por semana, exatamente ao meio-dia, ao sobrevoar aquela região, Marini deixa os seus afazeres e os passageiros desassistidos para se concentrar embevecidamente na ilha. Sua obsessão pela pequena e isolada ilha é crescente: informa-se sobre o seu nome, que é habitada apenas por uma pequena colônia de pescadores de polvos, cujo único meio de comunicação é um barco que lhes compra os pescados uma vez por semana e lhes leva outros suprimentos em troca. Embora tivesse uma vida boa e confortável Marini decide ir para a ilha. Com muita dificuldade, saindo de um barco para outro, consegue depois de vários dias, ao nascer do sol chegar lá. É bem recebido pelos nativos e parte imediatamente para explorá-la, até chegar à pequena praia de alvas areias. Perto do meio-dia, resolve tomar um banho de mar junto com alguns nativos que o acompanhavam. Enquanto banha-se nas águas do mar Egeu ouve um barulho do avião que se aproxima. Mas o barulho é estranho, anormal, com pipocos e ruídos. O avião termina caindo perto dali. A mão de um único sobrevivente consegue vir à tona. Todos procuram salvá-lo e levá-lo para a praia. Lá descobrem: o sobrevivente é Marini, que termina os seus dias ali, rodeado apenas pelos nativos da pequena ilha. Estar em dois lugares ao mesmo tempo é pura ficção. Servir a dois senhores com igual dedicação ao mesmo tempo, também. Servir ao País e ao PT ? sob o peso plúmbeo da ideologia ?, e ocupando cargo público relevante, como mostrou a Veja desta semana, o tempo mostrará, também é impossível, o País será inevitavelmente prejudicado. A escalada do aparelhamento do estado no Brasil pelo partido que está no poder, na qual a violação do sigilo da receita da filha e do genro de Serra é apenas um apêndice dos desmandos, mostra que o desprezo pelas instituições, base indispensável e insubstituível da democracia, é uma prática corriqueira desde as mais altas esferas até a turma do escalão inferior. As muitas anormalidades praticadas pelo PT no poder e alocadas como normais, entre elas o Mensalão, traduzem-se, infelizmente, no desprezo pelas instituições, postura associada a regime autoritário ? e, este, seja de direita ou de esquerda, não dá mais pra agüentar, nem em ficção. (*) É médico e professor da Uncisal.

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