Opinião
Nascido para correr
Nas Barrancas Del Cobre, um mundo perdido na Região Norte do México, vive uma mítica tribo formada por superatletas corredores ? os tarahumaras, considerados o povo mais saudável e calmo do planeta, que ali se instalaram correndo dos invasores espanhóis. Entre eles são tratados como rarámuri, que significa corredor ou aquele que caminha bem. Há poucos dias tive a honra de ser apresentado a um menino pobre treinando numa das melhores academias de atividades físicas de Maceió para competições de triatlo. Por questões que logo serão entendidas, não irei revelar o seu nome. O triatlo é uma prova onde os competidores nadam, pedalam e correm em distâncias que determinam suas diferentes modalidades, exigindo dos atletas forte determinação e exuberante condição atlética. Para chegar ao triatlo o jovem atleta tem corrido muito para não entrar na grande equipe dos dependentes químicos e traficantes formada por seus colegas de infância. Perdeu um irmão viciado em crack assassinado a tiros nas proximidades de sua casa, outro sobrevivente já segue o mesmo caminho do morto. A dependência química do sobrevivente impede que o atleta leve para sua casa os materiais que ganha para serem usados nos treinamentos. O irmão troca tudo por crack. Outro dia uma senhora passara pela porta do atleta portando um telefone celular e o cumprimentara, em seguida um colega de infância fizera o mesmo, portando um revólver. Logo depois a senhora desesperada informara ao atleta que teria sido vítima de assalto feito pelo colega dele e cobrava providências. Em outra oportunidade, quando corria com uma mochila nas costas, fora abordado por policiais que logo iniciaram os procedimentos de busca e encontraram um pacote de suplemento energético apresentado em pó branco confundido com cocaína. O atleta passara pelos rigores do tratamento dado a um traficante e, depois de tudo esclarecido, fora deixado na rua com a bolsa e autoestima reviradas. Para se inscrever e participar de provas fora do Estado enfrenta maratonas mais desgastantes que a própria competição, pois não tem apoio nem da sua própria federação ou de qualquer outra entidade pública. Ele sai pegando as contribuições como se pegasse o bastão numa corrida de revezamento. Não tem bicicleta, não tem macacão para a natação, mas lhe sobra determinação, expressa num sorriso cativante, que não é maculado por noites mal dormidas provocadas por tiros dos traficantes e a inquietação de um irmão viciado em drogas. Enquanto isso, prefeitos organizam eventos ditos culturais e patrocinados com verbas federais, onde são gastas fortunas com bandas musicais que convidam os jovens para o triatlo da dependência ? ?vamo simbora prum bar, beber, cair e levantar?. (*) É delegado de Polícia Civil.