Opinião
Rio S�o Francisco, uma riqueza inexplorada
Em noites enluaradas, na varanda da fazenda onde nasci, em Traipu, à margem do Rio São Francisco, contavam-se lendas da época do descobrimento desse rio. Os indígenas, habitantes da região, eram bravios e ferozes. Como incentivo aos soldados portugueses e seus comandantes para que explorassem as terras marginais desconhecidas, circulavam lendas de que os índios guardavam tesouros em ouro, prata e pedras preciosas. Recentemente, encontrei uma dessas versões na valiosa tese do professor Medeiros Neto, intitulada ?História do São Francisco?, que diz: ?Amante de contos fabulosos e de lendas, o português quis avançar em busca do vale de opulência desse rio e em procura da bacia de encantos e maravilhas, que, nas cabeceiras, escondiam filões de ouro descendo de serras e de encostas?. O Rio São Francisco a todos encantava com suas belezas e mistérios. Se essas riquezas existiram, não parece que os ribeirinhos das margens sanfranciscanas as tenham herdado. Herdaram sim, uma preciosidade inigualável: a água cristalina do rio. Apesar de agredido de todas as formas, o rio continua sendo uma via fluvial de grande beleza que para muitos serve de meio de subsistência. A poluição dos detritos urbanos, a pesca desordenada, o desmatamento dos arredores, o assoreamento e as hidrelétricas que represaram o rio e o deixaram raso e pouco navegável ? nada disso desanima os habitantes da região. Da parte de sua população, o que há, sim, é uma decepção generalizada. Cadê a revitalização? O que tem sido feito para melhorar as condições de navegação, para incentivar o turismo, o apoio prometido ao comércio e aos setores produtivos que clamam por socorro? O excelente texto da revista Graciliano, publicado recentemente, evoca-me os muitos anos de minha vivência com esse rio, que foi outrora uma torrente impetuosa. Há 60 anos, na maioria das cidades que margeiam o rio, as estradas para os centros maiores eram apenas carroçáveis. O rio era a estrada, o caminho por onde transitavam o navio Comendador Peixoto e centenas de canoas, estas últimas verdadeiros artesãos do transporte fluvial. Um texto regionalista, datado do início do século 20, mostra a realidade dessa época. Assim expressa: ?Os defuntos vão para a cova embarcados, vão os noivos para os casórios e, bem assim, as procissões, os comerciantes, os trabalhadores, os músicos. O rio é a rua?. São histórias de uma fase de vida regional em que não havia pressa; o tempo seguia em sua lenta e eterna romaria. (*) É médico e ex-Secretário de Educação e de Saúde.