Opinião
Cerim�nia do adeus
O consagrado escritor Herman Hesse narrou em sua obra os valores que cercam as despedidas. Destacou o conteúdo nômade existente em cada ser humano. A grande vocação do homem seria desafiar sempre novos caminhos. O verdadeiro andarilho nunca deveria cultivar a semente da saudade. As separações não traduzem uma partida verdadeiramente definitiva. No entanto, todos precisam ampliar o entendimento da expressão do adeus. Declarar os laços de suas afeições, expor seus fiéis sofrimentos e dominar os lamentos das perdas. O gênio literário do escritor argentino Jorge Luiz Borges, de forma mais imponente, escreveu que os homens inventaram a palavra adeus porque se sabem de algum modo imortais, embora se julguem em verdade, contingentes e efêmeros. A imortalidade a que se refere Borges parece ser a marca das raízes das amizades plantadas no tempo. Sua duradoura lembrança traduz a trajetória dos longos afetos, os compromissos das alianças celebradas e o universo das gratas recordações. Tudo que agrada ao espírito mereceria permanecer por mais tempo em nossas vidas. Às vezes, despertamos para vivenciar realidades que não mais existem. Precisamos enfrentar, com sabedoria, os apelos das nostalgias e procurar erguer o ânimo em busca de novas alegrias. O decorrer do tempo suscita em todas as pessoas um certo nível de melancolia, não pelas revelações colhidas nas sendas dos caminhos nem pelos mistérios heroicamente desvendados. Mas pela queda dos impulsos e delírios que ornamentam de ilusões a existência humana. O mundo dos que já viveram muito, confidenciou em sua renomada obra o cientista político Norberto Bobbio ? é um mundo onde contam mais os afetos do que os conceitos. Num manifesto reconhecimento da primazia dos sentimentos sobre as distinções sociais. Uma antiga canção popular brasileira, lembrada por várias gerações, fala das cinco letras que choram. Tradução de um liame dramático entre os que partem e os que permanecem. Todos envolvidos por uma imensa tristeza, sob o signo de um legendário lenço branco de dor. A solenidade do adeus guarda incontidas lágrimas. Novos desejos inauguram disfarçados sorrisos de esperanças. As reconstruções possuem marcas de incertezas. Somente se revela clara e eterna a plenitude dos instantes, vividos ao sabor daquilo que perseguimos e amamos. (*) É advogado.