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Opinião

Educar e punir

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Sou do tempo em que não se falava muito sobre traumas em crianças decorrentes de algumas palmadas e pisas. Levei muitas da minha mãe, mas pela dimensão do amor e talvez pelo cuidado, não tenho lembranças de nenhumas delas, das três que levei do meu pai, lembro dos detalhes, batia com raiva. Quando virei pai não consegui bater nos meus dois filhos, pois corria o risco de copiar o meu, terceirizei com minha mulher, muito mais equilibrada para a missão. Não alcancei o tempo das punições escolares com o uso de palmatórias, mas experimentei momentos que forjaram a minha disciplina. Cantar o hino nacional, chegar à sala de aula antes do professor, levantar-se com a chegada dele, pedir e justificar uma saída necessária no meio de uma aula, fazer o dever de casa, estudar a aula dada, preparar-se para as sabatinas de tabuada e conjugação de verbos, foram atividades que formaram o sentimento do cumprimento do dever. O uso da farda era obrigatório, entrar na escola de bermuda e sandália nem pensar, se não estudasse seria reprovado e não passava de ano devendo matérias a serem pagas em escolas consideradas verdadeiras UTI?s da educação. Aos cinco ou seis anos os alunos da primeira série primária sabiam ler e escrever e realizar as quatro operações matemáticas, sem registros de traumas e pagamento a professor particular. Mas vivíamos no período da ditadura militar e toda essa formatação de disciplina fora confundida com os excessos autoritários daquele período. A ambientação mudou, os pais de numerosas famílias não conseguem mais educar os filhos, separam-se com muita facilidade, e o tempo no trabalho limita o acompanhamento na vida escolar. A educação ficou por conta da escola que já não é mais nenhuma referência. Lá aluno não respeita professor, estuda se quiser, não pode ser reprovado, qualquer atitude que sugira punição é interpretada como arbitrariedade, e assim o jovem vai crescendo acreditando que tudo pode e nada lhe acontece. Em casa, se levar uma palmada, pode acusar os pais de tortura. Se enveredar para o crime só conhecerá punição efetiva depois dos 18 anos, com o caráter já formado, com possibilidades remotas de ajustes na personalidade. A cada plantão policial vou conhecendo muitos desses jovens e constatando suas limitações, quase todos dependentes químicos e que mal conseguem desenhar seus próprios nomes. Os contatos vão sendo cada vez mais freqüentes e a polícia passa a ser a única referência de punição para eles. É o fim. (*) É Delegado de Polícia Civil.

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