app-icon

Baixe o nosso app Gazeta de Alagoas de graça!

Baixar
Nº 5712
Opinião

V�cios

MARCOS DAVI MELO * Ele era um menino esperto. Desde cedo demonstrou grande interesse pelas coisas que traziam apenas uma fileira de barcos puxados a corda e umas bancas de jogo de azar, que ele não estivesse lá na roleta, arriscando alguns trocados no

Por | Edição do dia 30/08/2002 - Matéria atualizada em 30/08/2002 às 00h00

MARCOS DAVI MELO * Ele era um menino esperto. Desde cedo demonstrou grande interesse pelas coisas que traziam apenas uma fileira de barcos puxados a corda e umas bancas de jogo de azar, que ele não estivesse lá na roleta, arriscando alguns trocados no vermelho, dezessete. Compartilhando as emoções, o cigarro dava ao adolescente o contorno de amadurecimento ansiado. Classe média no tempo em que isto significava estabilidade e dignidade; não teve dificuldades para avançar nos estudos. Bem humorado e bem apessoado, não lhe faltaram namoradas e “casos”, em uma época na qual a grande maioria das meninas de Maceió só abdicavam da virgindade no leito nupcial. Casassem cerimoniosamente na igreja ou “fugidas”, como foi moda durante uns tempos por aqui. Desportista sagaz, destacou-se entre um grupo de amigos na pescaria submarina, onde os longos mergulhos livres, sem o auxílio do torpedo de oxigênio, demonstravam a sua excelente capacidade atlética. No final da pescaria, o maior e mais belo Galo do Alto, tinha sido abatido pelo tiro certeiro de sua espingarda. Era um dos seus hobbies preferidos para relaxar da prática da medicina. Ainda na jangada ao balanço das ondas, de volta para a terra firme, retirava de dentro de sua sacola o inseparável cigarro, com o qual dividia todos os seus melhores e piores momentos. Certa feita durante um mergulho teve um problema. Dizem que embolia. Quase ficava no fundo para sempre. Boa condição geral, em pouco tempo, recuperou-se totalmente. Voltei a encontrá-lo anos depois em dramática situação. Nele diagnosticado um câncer dos mais agressivos e avançados no pulmão. Aos quarenta e poucos anos estava condenado. O tempo que lhe restou de vida, menos de um ano, foi só de sofrimentos indescritíveis. As altas doses de morfina, no curso final de sua enfermidade, pouquíssimo lhe aliviavam as fortíssimas dores. Durante mais de 25 anos de exercício da oncologia, perdi as contas dos casos com final parecido. E não param de chegar. Não precisa ser cancerologista para testemunhar estes casos que interrompem e tornam o final de uma vida uma coisa trágica, tanto para o doente como para os familiares. Infartos do miocárdio, derrames cerebrais e enfisemas pulmonares estão entre outras patologias graves, que a cada minuto mais engordam as estatísticas de óbitos em todo o mundo. Deve-se isto ao cigarro, considerado pela Organização Mundial de Saúde, o agente isolado mais prejudicial para a saúde humana. Asvítimas fatais podem ser contadas aos milhares a cada ano. E tudo começa com uma primeira e inocente tragada, normalmente na adolescência, quando a  personalidade muito precisa de  muletas para tentar se afirmar. Daí  o hábito passa o vício e este é de difícil mas não impossível superação. Os hábitos, as manias e os vícios fazem parte integrante do ser humano. Existem os saudáveis que devem ser estimulados e os nocivos, como o fumo e o álcool em excesso. Os dependentes precisam de toda a nossa ajuda. Entendemos o poetinha Vinícius de Morais, quando dizia que todo homem deveria estar sempre “duas doses a mais”. Mas não podemos esquecer que o perdemos e ao seu parceiro maior Tom Jobim, por força do vício. (*) É MÉDICO

Mais matérias
desta edição