Opinião
Quem � o respons�vel?
Era o meio da manhã desta última terça-feira e estava trabalhando normalmente na Santa Casa, quando o competente e prestimoso colega cirurgião, dr. Robério Melo, que naquele momento estava de plantão na Emergência 24 horas, me procurou para alertar que um paciente entrara ali, extremamente agitado e agressivo, totalmente descontrolado e alcoolizado, fazendo ameaças generalizadas de morte aos profissionais, entre os quais este cá. Portava imensa faca-peixeira novinha, ainda sem uso. Com muito esforço, competência e zelo, a equipe lotada na Emergência conseguiu conter o paciente e sedá-lo no leito. Interrompi os atendimentos aos demais pacientes e me dirigi para a Emergência para avaliar a situação. Resumo: o paciente estava sob os nossos cuidados desde o início do ano para tratar um câncer avançado de cavidade oral, cujo curso da terapia tinha sido extremamente complicado. Complicado, não só pelo estágio avançado da doença (o que infelizmente ainda acontece com a maioria dos casos) ao chegar para o tratamento, como também por ser um paciente psicopata, com um passado de 14 internamentos psiquiátricos no Hospital Portugal Ramalho, onde em sua ficha clínica constavam alucinações,delírios,tentativas de suicídio e, para complicar ainda mais, o alcoolismo crônico,causa principal de seu câncer de boca. Depois de horas conseguimos que a Polícia Militar, com a ajuda do Samu, transferisse o paciente para o Hospital Portugal Ramalho, onde em conversa com o seu diretor, dr. Aldenis,este garantiu mantê-lo internado por alguns dias. A família, pilar fundamental no apoio destes infelicitados pacientes, jamais apareceu para dar um mínimo de amparo ao mesmo; a Santa Casa e seus profissionais, com o apoio do Portugal Ramalho,fez a parte médica, social e familiar, desde que os parentes abandonaram-no totalmente e nunca apareceram. Quando sair do Portugal Ramalho, sozinho, sob o jugo do álcool e depois das alucinações, dos delírios, o que poderá fazer? Quem o protegerá e aqueles a quem as suas alucinações e delírios ameaçam?O Ministério Público, sempre tão célere em cobrar de médicos e hospitais soluções para tudo, não deveria também proteger os trabalhadores da saúde e conduzi-lo ao manicômio judiciário, onde receberia cuidados, ficaria seguro e não ameaçaria os únicos que o ajudaram? Quanto à responsabilidade dos familiares, neste caso e principalmente naqueles de grande interesse público, como o tráfico de influência no governo, praticado pelo filho da ex-ministra Erenice Guerra --- a omissão não é uma forma de crime? (*) É médico e professor da Uncisal.