Opinião
A cura da nossa mem�ria
A nossa memória é o depósito de nossas lembranças. Nela estão guardadas a nossa história, as nossas vivências mais distantes e mais próximas. A memória recorda-nos que somos seres em processo, seres em construção. Mas geralmente usamos mal a memória. As vivências negativas comumente são as mais frequentes, quando fazemos uso dela. As lembranças dolorosas são como aquela ferida que resiste à cicatrização, a despeito dos paliativos nela aplicado. Recordar deveria ser sinônimo de viver, porém se torna, muita vezes, o mesmo que sofrer. Nós somente crescemos humanamente se fizermos bom uso da memória. É preciso ter presente os fatos passados, seja eles positivos ou negativos, e relê-los, para podermos nos lançar para o futuro. A Sagrada Escritura nos diz exatamente isto: devemos recordar, ler à luz de Deus os eventos da nossa história pessoal. Fazer memória é voltar o olhar para trás e perceber a ação divina neles, compreender o seu propósito. Somente assim, abrimo-nos para um futuro novo, pois estaremos experimentando a realidade de uma maneira nova. Jesus, ao instituir a Eucaristia, deu aos cristãos a ordem de fazê-la em memória Dele. Isto não significa simplesmente viver relembrando-o como um personagem do passado. Significa que ao celebrar a Eucaristia tornamos presente a ação misericordiosa de um Deus que, misteriosamente, por caminhos contraditórios, inclusive pela cruz, salva a humanidade da sua autossuficiência, do seu egoísmo, da sua falta de amor. Pela memória eucarística, Cristo se faz presença real, nos faz experimentar que toda a nossa história tem como finalidade renascer para uma vida nova, e, no final de tudo, para a eternidade. Se há algo que Deus não faz conosco é apagar a nossa memória. Até desejaríamos que isto acontecesse. Mas a memória é o instrumento de trabalho de Deus em nós, é a maneira pela qual ele se manifesta como força viva, conduzindo tudo em suas mãos. Por isso Ele não apaga a nossa memória, mas nos convida a transformá-la, a não ficarmos presos nas redes perigosas da culpa, da mágoa, do medo, da ansiedade. É preciso curar a nossa memória. E o que isto significa? É lançar um olhar para o passado, para as pequenas e grandes coisas, é enxergar ali a história de uma amizade entre nós e Deus. Uma história onde Deus, mesmo nos nossos erros, mesmo nos nossos sofrimentos, vem nos convidando a sermos sempre maiores dos que as nossas míseras limitações. Curar a memória é único caminho para crescermos humanamente nas nossas diversas dimensões. Só amadurece que tem memória, mas uma memória capaz de se maravilhar com o passado e abrir-se para o novo que sempre nos vem. (*) É seminarista e psicólogo ([email protected]).