Opinião
A ci�ncia de uma vida longa
A busca pela imortalidade tem sido uma preocupação humana desde tempos imemoriais. Magia, feitiçaria, fórmulas e drogas milagrosas foram testadas desde remotas épocas, em laboratórios improvisados e empíricos, sem caráter científico, como forças ocultas e desafio a mentes inteligentes e investigadoras. ?O coração é o rei; os pulmões, os ministros; o fígado, o general; a vesícula, a justiça?. Essa pitoresca descrição da hierarquia orgânica está inserida em um tratado médico chinês, anos antes da vinda de Cristo. Entretanto, o homem nunca chegou tão perto da extensa longevidade como agora. Os avanços científicos dão sinais claros dessa possibilidade, e, caso isso aconteça, a morte não mais aconteceria por doença ou velhice mas, somente, em acidentes de altíssimo impacto, em que não haja condições de reparos no acidentado, por órgãos artificiais. Quando isso acontecerá, ninguém sabe. A imortalidade já existe na natureza em alguns casos raros (uma alga-viva e dois tipos de tartarugas), pois suas células ficam sempre jovens por motivos que a ciência não domina, mas pretende dominar. Mas enquanto isso não acontece, muitas outras pesquisas prometem mudanças em relação à longevidade humana. Uma das mais importantes dessas descobertas rendeu o Nobel de Medicina a três geneticistas americanos que começaram a decifrar por que as células envelhecem. Um desses motivos são as enzimas que ficam nas pontas dos cromossomos que, ao se dividirem, começam a envelhecer. Se os pesquisadores entenderem como evitar esse desgaste, estará dominado uma parte importante do envelhecimento. Os investimentos também são altos para o estudo e produção de órgãos artificiais, que estão sendo ?fabricados? fora do corpo do doente, com as células do seu órgão danificado. Para outros tipos de tratamentos estão sendo desenvolvidos os nano-robôs-médicos, que são componentes microscópicos inteligentes que poderão levar remédios até células cancerígenas, por exemplo, sem afetar as sadias. E para os que gostam de ficção científica, uma outra pesquisa futurista acha possível fazer uma cópia dos nossos pensamentos. O cérebro seria transformado em um software (programa de computador), que poderia além de cumprir funções de alguma área danificada do cérebro de um paciente, expandir sua capacidade intelectual. Bem, tudo isso que falei pode parecer fascinante, mas eu não toquei nos problemas sociais dessas descobertas: aumento da população e da aposentadoria, alimento e água insuficientes, relações humanas em geral. Mas se virarmos longevos, de vida longa e fecunda, teremos muito tempo para pensar nisso. (*) É médico e ex-secretário de Educação e de Saúde.