Opinião
Liberdade de express�o
A criatividade na mídia muitas vezes não depende só do talento. Em épocas de trovoadas e tempestades, ela pode surgir como ferramenta de manifestação das ideias e transmissão das informações.O jornal Estadão, durante a ditadura militar, diante dos cortes efetuados pela censura em seus textos, passou a suprir os espaços vazios com trechos dos Lusíadas de Camões. O Pasquim, lançado em junho de 1969, glorificação da ironia, intitulava-se ? Um jornal de oposição ao governo grego ?. ?Corajoso como um rato?;. No saudoso hebdomadário podia-se ler, em linguagem cifrada, matérias de resistência ao regime militar. Outro semanário daquela época, Opinião,sem o ar moleque do Pasquim, entrava mais fundo na cabeça da juventude universitária. Circulava com um encarte do jornal Le Monde e publicava regularmente artigos do New York Review of Books. Ia buscar numa nova esquerda mundial projetos de militância desligados da velha proposição marxista, na qual todas as atividades revolucionárias deveriam confluir para o grande projeto de tomada do poder. Seu proprietário Fernando Gaspariam, foi detido, e explodiram uma bomba em sua sede. A censura à imprensa começou com a ambiguidade do governo Castelo Branco, que propiciou uma liberdade seletiva: enquanto instalava inquéritos intimidadores, perseguia e afastava jornalistas, permitiu que o Correio da Manhã conduzisse uma campanha contra a tortura. No governo Costa e Silva, o inesquecível Jornal do Brasil publicou em sua solene edição dominical o texto ?Algumas sugestões sobre as guerrilhas? de Carlos Marighella. A livre expressão foi definitivamente abolida com a edição do AI-5, em dezembro de 1968. Blitzes militares com censores truculentos ocuparam jornais como o Estadão, que teve o seu diretor Júlio Mesquita, da linha conservadora paulista preso após publicar o editorial ? Instituições em frangalhos? . A Ditadura teve a sua oposição sediada na esquerda, nos democratas e na mídia enquanto pode falar. Teve também na esquerda mais decidida o braço armado, opção dos revolucionários mais radicais. Neste fala-se militou a atual candidata Dilma, que se reciclou; agora debate-se apenas para rejeitar e queimar as antigas más companhias do Gabinete Civil. Quem deteriorou abissalmente foi o Zé Dirceu,paladino da brava luta pela liberdade de expressão e hoje apregoador do ?controle social da mídia?, esquecendo que sem liberdade de imprensa não existe democracia. Para controlar e melhorar a imprensa, só mais liberdade de expressão. Os refratários não acreditam verdadeiramente na democracia. (*) É médico e professor da Uncisal.