Opinião
A voz do povo
E o povo tem voz? Indagou-me crítico um dos meus filhos em certo final de tarde de domingo, enquanto conversávamos sobre eleições, democracia e quejandas. A causticidade da pergunta levou-me a refletir sobre as conquistas populares históricas, até chegarmos ao estágio atual da vivência democrática. O povo, certamente, nem sempre teve voz, apesar do conhecido brocardo latino ?Vox populi vox Dei?, ou seja, o que o povo quer é, necessariamente, o que Deus também deseja. O axioma é meramente retórico, senão estaríamos atribuindo extrema crueldade ao Divino em certas ocasiões da História. Deixemos, pois, o Celeste em seu lugar celestial e ocupemo-nos de coisas mais temporais. A História tem registrado como primeiro dos marcos da libertação do povo a Magna Charta Libertatum (séc, III), documento-compromisso extraído, à força, do rei João Sem Terra pelos barões, clero e outros dignitários ingleses. Como visto, embora hoje todos sejamos beneficiários daquele ato, à época o povo não teve qualquer participação na sua origem, nem aproveitou suas consequências. A Revolução Francesa (séc. XVIII), essa sim teve o povo em ambas as situações, despertado e estimulado pelas palavras de Voltaire, Robespierre, Marat, Diderot, e tantos outros singulares homens inspirados nos escritos dos pensadores iluministas Rousseau e Montesquieu. Foi quando desse movimento histórico que a voz do povo, de forma alta e cruenta, nada pacífica portanto, pôde ser ouvida. A partir de então ? embora ocasionais e localizados regimes amordaçantes ? a capacidade de o povo manifestar-se veio evoluindo até atingirmos o patamar atual de democracia, onde o povo é, na verdade, o detentor primário do poder, exercendo-o através da escolha dos seus mandatários que, eleitos, representa-lo-á. Posso, então, responder à ironia do meu filho: a voz do povo é o voto. Se essa voz será eloquente ou roufenha; se será ela antoniovieirense altiva e reprochante, ou acomodada e submissa; se será castroalvense altaneira, ou humilhada e subalterna essa voz, isso dependerá de cada um de nós e da soma dessas nossas vontades decisivas. (*) É advogado militante.