Opinião
Justi�a com o pr�prio dedo
Se o impasse, no qual esteve envolvido o STF foi motivado, principalmente, pela falta de um de seus membros e se essa falta veio da intenção proposital de o Poder Executivo não o ter indicado para a vaga existente, evidencia-se a fragilidade desse modo de escolha que deixa aquela corte refém de políticos partidários. Saulo Ramos, renomado jurista, consultor-geral da República e depois ministro da Justiça no governo Sarney, conta em seu livro Código da Vida , Editora Planeta, que, quando ainda consultor, deu-se uma vaga no STF e logo lembrou de seu jovem e competente secretário-geral. Fez gestão junto ao presidente e sentiu que outros interessados ameaçavam sua escolha. Um deles,ministro da Justiça Oscar D. Correia, achou o candidato de Saulo muito moço, ouvindo em resposta que ?esse defeito o tempo corrige?. E assim foi escolhido o jovem e hoje maduro e atuante ministro do STF. Passado pouco tempo e Sarney candidato ao Senado, foi-lhe negada, pelo PMDB, a legenda no Maranhão. Saiu pelo Amapá, sendo impugnado com base no domicílio, indo parar a refrega no Supremo. Diz Saulo que, estando o Tribunal em meio recesso, o calouro ministro telefona-lhe preocupado com a distribuição do processo e o medo de o mesmo cair nas mãos de outro juiz. Como, de fato, caiu. Mas, no mesmo dia este concedeu medida liminar mantendo a candidatura pelo Amapá. Chega o dia do julgamento do mérito pelo plenário e Sarney sai vitorioso. Só que, sendo o último a votar, o afilhado de Saulo vota pela cassação da candidatura. Disse Saulo ? ?Deus do céu! O que deu no garoto? Preocupado com a distribuição e agora vota contra e fica vencido no plenário?.Este desculpou-se alegando que a Folha de S. Paulo havia noticiado que Sarney teria os votos certos de ministros, enumerando-os com seu nome incluído. Mas disse: se seu voto fosse decisivo votaria com Sarney. Perguntando se havia entendido sua atitude, ouve de Saulo: ?Entendi?, batendo o telefone e nunca mais falando com ele. Que os fatos acontecidos e a entrevista, na Veja, da ministra Eliana Calmon do Superior Tribunal de Justiça e corregedora do Conselho Nacional de Justiça afirmando que é comum a troca de favores entre magistrados e políticos, não destruam a nossa crença em uma instituição basilar da democracia. Mas que nos façam assumir uma responsabilidade maior, principalmente agora, e saibamos julgar aqueles que de fato merecem, ou não, reger nosso Estado e nossa nação, usando a única arma que nos dá o direito de fazer justiça com as próprias mãos ou com o simples dedo indicador: o voto. (*) É bacharel em Economia.