Opinião
Pleonasmos
RONALD MENDONÇA * Um grupo de adolescentes, em atencioso silêncio, ouvia o relato de um jovem professor de Português recém-chegado de uma viagem ao Rio de Janeiro. O lente, embora entusiasmado com tudo o que vira, das decantadas paisagens à exuberante sensualidade da mulher carioca, arrematou: ?Jamais moraria no Rio. Lá, mal fecha-se o portão da casa e mais ninguém sabe quem você é; muito diferente da Província que, por onde quer que você passe, sempre haverá alguém a exclamar: ?Lá vai o professor Granjeiros !?? Sebastião Granjeiros Neto, orgulhoso da linhagem familiar ? era professor de Português o avô do qual herdou-lhe o nome- falava aos seus alunos com um linguajar difícil de esquecer. Ainda hoje, estão no baú das minhas melhores lembranças aulas e expressões que, de tão empolgantes, provocavam paroxismos de excitação, não sendo raras as vezes em que a exposição terminava em frenéticos aplausos. Não é por acaso que nas prateleiras da memória empilham-se vocábulos como apedeutas, nefelibatas, molecoreba, rafaméia etc., que por si dão uma idéia do nível dos discursos. Foi no velho Diocesano, com Granjeiros, que ouvimos falar nas ?figuras de linguagem?, da hipérbole ao eufemismo, passando pela metáfora e pela antítese. Os solecismos do texto não deixam dúvidas: infelizmente, o pupilo não mereceu o mestre. Aprisionado pelos laços invisíveis, poderosos e sedutores de Esculápio, restaram, no entanto, em estado letárgico preciosas lições da adolescência. A utopia hipocrática de curar raramente, às vezes aliviar, mas consolar sempre, apesar de cada vez mais quimérica, ainda não se esgotou a vontade de tentar alcançá-la. Essas lembranças me chegaram a propósito do calvário que estão impondo a um dos candidatos à Presidência da República, pelo fato de ter afirmado que estudara ?a vida toda? em colégio do governo. Segundo se verificou, o postulante teria esquentado bancas públicas apenas 12 ou 13 dos 15 anos da vida acadêmica. De posse dessa ?abominável mentira?, adversários e boa parte da imprensa (e ponha boa nisso!) estão esquartejando o pobre homem com a determinação de um Chico Picadinho. Ora, ora, ora, imaginem se a imprensa levasse ao pé da letra todas as expressões figuradas que candidatos e eleitos costumam utilizar. O próprio presidente amargou o ?esqueçam o que escrevi?, acusando que a frase havia sido ?pinçada? num contexto. Lembram do ?Sapo Barbudo? ? E que dizer da expressão ?Ele come pela mão dos outros? ?. Será, também, que alguém que alardeia vir se preparando durante 20 anos para ser presidente ficou, de fato, debruçado nos problemas durante todo esse tempo ? Não quero nem falar no ?Mais Preparado? que nocauteou a Saúde com as suas ?100 melhores cabeças?. É. Granjeiros está fazendo falta. (*) É MÉDICO E PROFESSOR DA UFAL