Opinião
Jos� Pimentel de Amorim: 100 anos
Estava mesmo a pedir uma página de relembrança, ao menos numas tiras de jornal, o doutor Zeca, no ano de seu centenário. Não por simples bairrismo de viçosense, a querer provincianamente louvar os seus a todo custo, mas por contribuições suas que merecem uma pontuação. Contribuições, sem incompatibilidade, em si mesmas paradoxais. Paradoxais? Sim, paradoxais. Porque se ele cuidou de sua ciência de vermes, protozoários e artrópodes, cuidou também, do outro lado da esquina epistemológica, de sua ?ciência? de curas e benzeduras. A sua obra, foi ela duplamente pioneira. E pioneira o foi pelo estudo inovador da disseminação da xistosa mansônica por roedores nadadores ?lava-pés? (Nectomys squamipes), e não apenas por caramujos. Para se aquilatar o que sustento, bastante é se consultarem suas investigações, publicadas na Revista Brasileira de Malariologia e Doenças Tropicais (Rio), na Brasil Médico (Rio), nos Arquivos de Higiene e Saúde Pública (São Paulo), na Revista do Instituto de Medicina Tropical de São Paulo e nos Anais da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Alagoas; algumas das quais em coautoria com os professores Durval Tavares Pereira de Lucena e Darci da Rosa e com o emérito mestre paulista Samuel Barnsley Pessôa (1898-1976). Tais trabalhos teriam por base empírica, sobremaneira, Alagoas, durante as décadas de 1950 e 60. Menino de interior, Zeca estudaria no Instituto Viçosense do educador Ovídio Edgard de Albuquerque (1891-1955). Na capital, cursou os secundários no Diocesano e no Ginásio de Maceió. Os preparatórios, fê-los no velho Liceu Alagoano, capacitando-se para aluno da Faculdade do Terreiro de Jesus. A sua tese de doutoramento, em parte previamente figurada nos Arquivos do Instituto Nina Rodrigues, versaria sobre Putrefação: estudo experimental (1933), tema bacteriológico e forense sugerido e orientado por seu professor Estácio de Lima (1897-1984). Desde a fase acadêmica, porém, Zeca pendeu para as letras e para a pesquisa, publicando, nos anos 1930 e 40, crônicas pelos jornais viçosenses Correio de Viçosa, O Idealista, O Clarim, 13 de Outubro, Folha de Viçosa, Correio da Semana, Viçosa de Alagoas e Folha do Ginásio; algumas sob o pseudônimo José Parahyba. Na literatura, eram de sua predileção o barroco e o romantismo lusitanos, chegando a professor de língua portuguesa e, dez anos antes de seu falecimento no Recife de 1977, à Academia Alagoana de Letras. No campo, inclinado à epidemiologia e ao quotidiano da clínica, passou a se interessar pelo folclore, de que resultariam artigos sobre curandeirismo, receituários e contos populares, culminando na clássica monografia Medicina Popular em Alagoas (1963). 27 de abril de 2010 assinalou os cem anos do mestre tímido que foi ?Pai-mentel?. Timidez de santo corado, só se amainando um tanto quando por detrás das cordas do seu cavaquinho, naquelas algazarras das tocatas juvenis. (*) É sociólogo.