Opinião
Devagar, que tenho pressa
A epígrafe parece demonstrar um paradoxo, até um contrassenso diante de quem ouve tal expressão ou em face de aparecer na imprensa escrita. Salvo equívoco, trata-se de uma advertência de origem oriental, provavelmente na China ou algum país árabe. Contudo, creio não haver esse paradoxo ou contrassenso; se demonstrarmos a razão de ser do conselho ministrado ao viajante imaginário. Efetivamente, durante uma viagem qualquer, os viageiros tradicionais costumam andar sem pressa no início da viagem, apressando-se depois para terminar a jornada. Sem a menor dúvida, se começarmos uma viagem à pé, com passos ligeiros, cansamo-nos logo depressa e nos atrasamos, ao contrário do que parece à primeira vista. Podemos dizer que a própria natureza nos dá os melhores exemplos da veracidade contida na expressão que titula essas linhas. Assim, os evolucionistas nas espécies asseguram, nos seus livros, que o homem atual, que era encurvado pela sua origem simiesca, levou aproximadamente 150.000 anos para se soerguer como nos dias de hoje. Como um exemplo trivial, diz-se até que uma laranja só adquire a doçura completa depois de passar aproximadamente dois anos na árvore respectiva, o que parece ocorrer com algumas outras frutas. No que se refere às espécies animais, vemos que os dinossauros não desapareceram completamente da face da Terra, porquanto os lagartos atuais, como o calango, representam similitude com aqueles monstros da época pré-histórica. Assim, podemos observar que a natureza não dá saltos, contrapondo-se, por conseguinte à teoria da pressa, que nada resolve em termos práticos seja qual for o ambiente em que o homem evolui em seu trajeto para o futuro. O mesmo acontece quanto à desnecessidade da pressa ser na evolução das espécies. Assim, nos parece que o gato, esse felino doméstico, é um tipo em miniatura do jaguar e do tigre asiático. Sem esse processo vagaroso de aperfeiçoamento, nada teria evoluído na face do planeta, pois a pressa é inimiga da perfeição. Passando aos tempos modernos, verifica-se que a pressa atropela e confunde, porquanto não ajuda o raciocínio, essa faculdade do homem que dirige todos os seus passos, seja na vida particular, no desempenho de várias profissões, no sacerdócio da ciência, no encanto das artes, na maviosidade da música, na administração pública, que é a súmula de todas as administrações. Tais são os exemplos que a natureza e a vida prática nos aconselham para que o homem não se perca nas encruzilhadas, à mercê da sorte e do destino da humanidade. (*) É procurador de Estado, aposentado.