Opinião
Se esta rua fosse minha
Bem antes da revitalização do Centro de Maceió, fui convidado a fazer uma palestra sobre paisagem urbana remanescente do início do século 20. Na ocasião admoestei os presentes sobre o prejuízo dos tapumes nas fachadas de todo o casario antigo. Aquele que substituiu a residência colonial dos tempos provinciais. Um exemplo típico é casa existente até 1912, na Praça D.Pedro II. Ver https://sites.google.com/site/maceioontemehoje/- link 1- Centro da Cidade. Extremamente modesta, apresenta a porta (mais larga) e três janelas cujos umbrais parecem tortos, dando a impressão tratar-se de taipa, (já escorada) até por causa do pé direito muito baixo, deixando o telhado aparecer completamente, sem nenhum platibanda, que não era típico do período. A fotografia mostra uma casa já isolada, de idade mais avançada em relação à casa vizinha, do lado esquerdo, que embora no mesmo estilo, e um pouco mais alta, aparentemente é bem mais nova, quando a do lado direito, é uma construção do final do século 19, com varanda lateral, decorada com lambrequins e muro com pilares encimados de pinhas, fachada em estilo eclético, com inserções de frontões neoclássicos, sobre portas com balaustradas em ferro. O início do século transformou o pequeno burgo que aos poucos foi se transformando. Muitas casas foram reformadas, ganhando nova fachada ao gosto eclético daquele momento. O comércio foi avançando, dividido entre a região portuária de Jaraguá e o Centro da cidade, chamado simplesmente de Maceió. Separado pelos limites do riacho homônimo dividia a capital da província, que se comunicava pela Ponte dos Fonseca. A cidade delineada na planta da Vila de Maceió, por José da Silva Pinto, no ano de 1820, por ordem do governador Melo Póvoas e que teve mais tarde o acréscimo do bairro de Jaraguá, por Carlos Mornay, em linhas gerais, ainda é a mesma. Embora tenha crescido desordenadamente, sem poupar sua urbe primitiva ainda é possível ver escondida, atrás dos tapumes dos letreiros e propagandas a velha capital. Lamentavelmente, ninguém aqui jamais percebeu o charme de uma rua tradicional com suas fachadas remanescentes da virada do século 19, discretas sem a afetação dos letreiros, sem a poluição visual das propagandas, placas de trânsito, postes de cimento e excesso de marquises, abrigo para mendigos e usuários de drogas. A maior prova de que o desenho original do Centro da cidade é o mesmo são as estreitas calçadas, hoje povoadas de vendedores de alimentos e CDs piratas. É um horror andar por antigos becos(hoje ruas) atropelado por uma multidão.O Centro de Maceió é um ancião fantasiado de menino. (*) É escritor.