Opinião
Auto de f� medieval
Após 70 dias enterrados vivos os mineiros chilenos foram resgatados aparentemente saudáveis. No discurso proferido ao tempo em que o primeiro renascido surgia na superfície,o presidente Piñera afirmou que a fé foi o principal fator para que os trabalhadores sobrevivessem àquele prolongado martírio. Tamanha comoção e mobilização mundial poderiam ser creditadas somente à solidariedade (esta raridade) e à intensa exposição da mídia, ou algo mais ocorria?Por que em tragédias semelhantes, como o longuíssimo confinamento dos americanos na embaixada do Irã, não houve tamanha comoção?O fato de serem enterrados vivos,quase-mortos,eterno pavor humano, sequenciado pelo desenterro com vida, no inconsciente coletivo não simboliza a concretização da possibilidade da ressurreição? Diariamente, no exercício da oncologia, como grande parte dos pacientes só fazem o diagnóstico com doença avançada, e debalde todos os tratamentos, a doença continua em atividade,resta a morfina e a fé para sublimar e atenuar uma realidade incontornavelmente cruel. A fé tem sido um sentimento dos mais legítimos para a maioria dos viventes, principalmente nos momentos de padecimento, quando faltam os outros amparos; todavia, quando canalizada para o front político, tem sido o catalisador de genocídios atemporais, como ocorre no Oriente Médio desde sempre. O envolvimento do tema religioso nesta campanha presidencial, quando ambos os candidatos quiseram a todo momento mostrar qual era o mais religioso, qual era o mais ?favorável à vida?, não transpareceu o que se espera dos devotos: a sinceridade. Ver Serra e Dilma com aquelas expressões nazarenas, exortando as suas absolutas e inabaláveis convicções religiosas, como fator determinante de voto, traz mefistofelicamente a campanha para a idade média. A República é laica, mas existe justa reverência e inequívoco respeito ao culto da pluralidade religiosa, todavia, trazida pela questão do aborto,que em épocas não eleitorais o PT adequadamente prega como questão de saúde pública, como o é enfrentado na maioria dos países desenvolvidos e cristãos,tomou a questão religiosa conotação predominante na campanha, quando a eleição é para presidente e não para sumo sacerdote Serra, como ex-ministro da saúde, entende que esta questão é antes de religiosa, de saúde pública, mas prefere omitir-se do debate e atrasar a agenda política nacional, seguindo, como todos, as determinações dos marqueteiros.Questão maior das campanhas: o que realmente pensam os candidatos sobre questões tão relevantes e fundamentais ao desenvolvimento do País? Só Deus sabe. (*) É médico e professor da Uncisal.