Opinião
Li��es da tropa
Assim como milhões de brasileiros, fui assistir ao tão esperado filme Tropa de Elite 2, trama que traz como personagem central o emblemático capitão Nascimento já promovido ao posto de coronel e, em seguida, subsecretário de segurança do Estado do Rio de Janeiro. O filme apresenta o conflito entre os princípios e as práticas policiais de uma unidade de operações especiais (Bope) com as sutilezas que envolvem as atividades de um ocupante de cargo político na gestão da segurança pública. Assim como centenas de policiais considerados operacionais, Nascimento transita no limite entre o que é considerado heróico e o que é banditismo, situações em que só os que não se escondem na omissão passam. Na frieza dos gabinetes dos gestores, Nascimento é movimentado como uma peça de jogo de xadrez onde só ele está sempre em xeque. Aprende a duras penas que missão dada nem sempre pode ser cumprida. A carreira de policiais que se dedicam ao combate ao crime de forma arrojada é marcada pelo risco contínuo na busca de informações com criminosos, em tiroteios não unilaterais, pilotando viaturas inadequadas em alta velocidade e, por isso, envolvidos em acidentes, disparando tiro de comprometimento em resgate de refém, controlando motins de presos e, como consequência, processos administrativos e penais em seu desfavor e um imenso leque de criminosos que esperam por um vacilo para matá-los. Poucos policiais operacionais têm a sorte de cair pra cima, como ocorrera com Nascimento, se é que pode ser assim considerado ? sair das ruas e ocupar um cargo de direção na cúpula. As prisões de delegados e oficiais combatentes já não representam mais nenhuma novidade ? caem para dentro e para baixo, indistintamente. Nascimento ousou enfrentar um sistema político onde o que importa é o voto, e para consegui-lo vale tudo. Retira os traficantes de drogas e seus soldados dos morros, para ocupá-los com milícias e cabos eleitorais indicados pelos políticos que posam de bons moços e, por conseguinte, tornam-se campeões de votos. Ao final, o público aplaude o heroísmo de Nascimento, mas deixa a sala com a sensação de insegurança e de impotência para enfrentar um sistema tão envolvente, pois apesar de ter a arma do voto, não tem condições seguras de separar o que é verdade do que é hipocrisia no parlamento. (*) É delegado de Polícia Civil.