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Opinião

O lado triste de um resgate

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O resgate dos mineiros chilenos foi uma operação de grande sucesso. O mundo inteiro se comoveu com a chegada do primeiro mineiro em uma cápsula que parecia sair de um filme de ficção da década de 1980. Entre Pedro Cortez e a superfície havia mais de meio quilômetro de rocha compacta. Foi incrível! Não escrevo aqui para questionar o mérito da equipe de salvamento: essa é a parte limpa de toda essa história. Escrevo porque, passado à emoção inicial, fiquei esperando uma discussão sobre a raiz do problema. Esperei, em vão, que algum comentarista informasse que a maior parte dos acidentes em minas se deve à resistência de empresários em abrir mão de uma parcela do lucro, seja para garantir segurança, seja para prevenir impactos ambientais. Essa resistência conta com a complacência do governo de muitos países, inclusive o Chile. A parte feia não foi mostrada na TV. A mineração tem feito vítimas em todo o mundo. Na China, estima-se que 13 mineiros morram por dia na busca por energia e aço. O crescimento da China é propagado aos quatro ventos como um modelo a ser seguido pelo Brasil. Isso é lamentável. Produzir minério sai mais barato onde as exigências para se prevenir ou remediar os impactos são menores. Isso vale também para outros setores como a indústria e a agropecuária. Em nome do crescimento econômico os Estados se tornam flexíveis, mas quando ocorre uma catástrofe a população é quem paga a conta. Essa facilidade para se livrar da sujeira gerada com a lucrativa produção estimula o desmatamento, a poluição e o desrespeito à legislação ambiental e a justiça trabalhista. O Brasil, por exemplo, no quesito ambiental, vem dando um passo pra frente e dois passos pra trás. Os empresários querem incentivos, estradas, portos e isenção de impostos em nome da geração de emprego, mas não querem pagar o custo de um modelo mais humano, mais seguro e ambientalmente adequado. Um caso emblemático é a resistência do agronegócio brasileiro em manter as áreas de mata protegidas pelo código florestal. Desmatam e quando vem a chuva forte a população é quem paga pelos lucros exorbitantes daqueles que desmataram além do permitido por lei. Isso aconteceu em Santa Catarina, no Rio de Janeiro e aqui em Alagoas. Fazem pressão para o governo afrouxar a lei e quando as cidades são destruídas o Estado é quem socorre e nós que pagamos a conta. Isso me faz lembrar de uma frase que li num livro do Jared Diamond sobre certa placa na porta de um banheiro público em Montana, USA: ?não dê descarga, deixe que os outros limpem sua sujeira?. A placa se referia, ironicamente, à mineração de cobre. Vou pedi-la emprestada quando as mudanças no código florestal forem aprovadas no Brasil: teremos muita sujeira para limpar após cada inverno. Isso não pode ser chamado de desenvolvimento, nem no Chile e nem na China. (*) É professora.

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