Opinião
Remunera��o � reconhecimento
Quando falamos em valorização profissional pensamos logo em vencimentos, algo ligado a valor monetário. Na verdade, valorização profissional, tem todo um conjunto de variáveis onde a remuneração é fator de reconhecimento, e não de fim. Uma parcela da classe médica tem agido, ao longo dos anos, de uma maneira que fere os princípios da medicina de Hipócrates. O ganhar tornou-se imperativo, independente dos meios. Temos esquecido dos mais necessitados, virando-lhes as costas, atribuindo toda a responsabilidade em oferecer um tratamento digno aos gestores da saúde. Temos perdido a dignidade e o sentimento de amor aos mais necessitados. Frequentemente, vemos pacientes graves jogados à própria sorte, à busca de tratamento, encontrando as portas fechadas, o não como proposta terapêutica de uma doença grave, às vezes curável, evoluindo para um desfecho onde a dor e o sofrimento poderiam ter sido evitados, bastando uma atitude médica de desapego ao dinheiro, de amor ao próximo. Terceirizar a sua responsabilidade, atribuindo ao sistema toda a miserabilidade, parece ser a palavra de ordem. Uma vez convencido que sua atitude não é a motivação do desfecho ele consegue dormir tranquilo. Noutras, recebem de empresas de artigos médicos, um percentual sobre materiais utilizados, muitas vezes super-indicando a utilização dos mesmos; cobram por fora uma pseudo complementação de pobres coitados do SUS, uma agressão à ética, uma prática absurda de corrupção onde a imagem do médico é maculada. As más práticas do exercício da medicina, o excesso de profissionais médicos, na sua maioria com formação a desejar, os altos custos gerados pelo mau uso da tecnologia em saúde, os pedidos indiscriminados de exames complementares, têm levado, por outro lado, as operadoras de saúde a tentarem minorar suas despesas. O meio mais fácil de um resultado de curto prazo está em achatar a remuneração do médico, o quê, por revolta ou por necessidade de manter-se, tem de atender mais e mais rápido, alimentando esse ciclo vicioso de banalização do sofrimento, da falta de ética, do erro médico e do ganho fácil. A falta de diálogo entre as operadoras e os profissionais médicos, tem levado a paralisações de atendimento e, até mesmo, à solicitação de descredenciamento do especialista ou de toda uma especialidade. O preço pago por uma consulta ou por um procedimento é, na maioria das vezes, aviltante, revoltante, diria até vergonhoso. Finalmente, diante do exposto espero ter-me feito entender que valorização profissional está muito além do ganhar mais. O valor monetário não está agregado à valorização profissional, entretanto, quando se é valorizado pelo mercado, ser bem remunerado é uma consequência natural. O que teremos de fazer como médicos para termos o reconhecimento do nosso valor diante das operadoras de saúde, dos nossos pacientes e de nós mesmos? Vamos transformar a consequência em objetivo, o meio em fim. (*) É médico.