Opinião
Caridade compuls�ria
Houve uma época em que a nossa paisagem social era menos árida. Lá na minha pequenina e sofrida Rio Largo, por exemplo, existiam apenas três mendigos. Jamais esqueci a fisionomia resignada deles. Ainda jovem, e sem entender as causas dos nossos problemas sociais, perguntava-me: será que eles estão pagando pecados? Hoje, é impossível contar os nossos necessitados, mas encontro uma das respostas para seus infortúnios: apesar de todas as potencialidades recebidas da mãe natureza, não quiseram que o nosso País se desenvolvesse em todas as regiões, como deveria, e, ainda por cima, fizeram vistas grossas para o aumento da natalidade. O resultado desse descaso, sabemos, tem gerado o caos. De fato, em 1970 éramos 90 milhões em ação; hoje, somos 192 milhões. Além disso, esse crescimento demográfico ocorreu de forma desordenada, a classe média diminuiu os nascimentos; os mais carentes não. Como se isso não bastasse, foi-nos negada uma educação escolar universal e eficiente. Resultado: cresce um Brasil pobre e ignorante; vulnerável a todo tipo de enganação. Muitos se elegem usando esse projeto de poder, que explora e determina penitências cada vez mais insanas aos mais pobres. Entre elas, alienação e subserviência. Isso é visível e ressuscita o pensamento de Dante Alighieri: ?O inferno é aqui?. Guiado por ele, vejo os marginalizados do consumo sofrendo as agruras da vida, morando debaixo das nossas pontes e em favelas; traficando drogas e prostituindo-se; vendendo a dignidade e o voto, enfim, para conseguir algo que possa minimizar seus problemas. Como cristão, concordo em ajudar aqueles que sobrevivem à mesquinhez, mas não gostaria de ver continuar esse sistema político vil; que subtrai o direito de igualdade de oportunidade e depois oferece ajuda; que nega a educação libertadora e inibe o desenvolvimento; que enfraquece a democracia e anima paixões excessivas do homem. Porém, como não consigo fazer valer meu espírito republicano, sou obrigado a custear?Fome Zero?, ?Minha Casa Minha Vida?, ?Luz para Todos?, ?Vale-gás?, ?Vale-esporte?... Grande é a desfaçatez; sequer tem-se o cuidado de dizer que esses programas sociais são financiados pela sociedade. Olho, então, para o fundo do poço e faço duas indagações a Dante: Quando os subtraídos levantarão a cabeça e sairão do inferno com as próprias pernas? Quando flutuarem para o céu, talvez. E os incontáveis marginalizados que estão chegando? A continuar com essa comédia, serão, como sempre foram, usados pelo podre poder. (*) É contador.