Opinião
Seu lixo, minha exist�ncia
Ele está ali todos os dias. Em qualquer alvorecer, em todos os meses, em todos os anos, provavelmente por toda a sua existência, vai estar. A vida parece não lhe reservar outro espaço. Insistentemente ali, ainda que não goste do cheiro podre que seu trabalho exala. Tem que correr, apanhar sacos e sacolas cheias de expurgos dos burgueses provincianos e de uma sociedade infecta, cheia de maus hábitos consumistas. O nome desse gari? Bom, não importa. Podia ser João Aparecido dos Santos e, quem sabe, ter por volta de 35 anos, mas a quem interessa tal biografia? Nem a ele mesmo. Não, não queria ser Aparecido, esconde-se da lente que o mira. Deseja ser assim, meio Santo, investido de poderes para ver atendidas suas diminutas súplicas, casa própria, escola para os sobrinhos e uma mínima aposentadoria de um mínimo, foi o que disse. Não se conferia autovalor, era um ?João Ninguém da Silva?, o do poeta, talvez. Ele era totalmente desassistido, até mesmo de afeto, não tinha pais, nem companheira. Era tão natural para ele, estar ali com seu olfato anestesiado, em contato na lida diária, com pedaços apodrecidos, frangalhos diversos, infectos resíduos de todos que não o via, não o conhecia, não se interessava por ele, mas se faltasse ao trabalho por dias, saberiam de sua importância e ajuda para manter suas enfatuadas pessoas. Dias após dias apanhando a escória de seus quase semelhantes e acionando botão de triturar lixos. Acostumou-se tanto a essa rotina que deixou arrastar seus sonhos, suas expectativas e quimeras para máquina trituradora. Permitindo liquefazê-las em chorume que corre pelas veias abertas da América alagoana, depositando-as no aterro sanitário e solitário. Talvez, ele não percebesse que os beneficiados do seu trabalho prezassem por uma boa distância dele, mas não se podia negar que não lhe fossem ?benevolentes?, ajudando-o a manter sua vaga no trabalho, gerando muito, muito lixo e acondicionando de qualquer jeito, para que o juntasse e tivesse trabalho. Garantindo, coitado o seu sustento! Assim, parecem desprezadamente pensar, os usuários da companhia de lixo. Perguntado a ele pela diversidade e volume de detritos disse: ?que Deus dê muito dinheiro a eles, (apontando para os prédios residenciais do bairro nobre) para comprar muito. E, se possuir, vai usar e jogar, até coisa que presta vai dispensar, e aí, a gente ta aqui, para pegar tudinho e colocar no caminhão, é bom, né??. A frase foi um açoite. Não percebia que carregava sacos e sacolas cheias da imundice das desigualdades. Tinham colocado entulho também em sua cabeça, mas essa resignação atávica há de ser igualmente triturada, antes que jogue sua invisível vida fora. (*) É bacharel em Letras.