Opinião
Cidades (in) sustent�veis
Com razão, os habitantes das grandes cidades e capitais, em muitas partes do mundo, se vangloriam de poder usufruir de benefícios e vantagens da urbanização que são também classificadas, em resumo, como melhor qualidade de vida. Contabilizam-se neste indicador possuir ou ter acesso a moradias bem construídas, dotadas de espaços de convivência e áreas verdes; ruas pavimentadas com calçadas cimentadas ou revestidas; serviços de abastecimento de água, de esgotamento sanitário, de coleta de lixo (resíduos sólidos) e drenagem de águas de chuva (pluviais); outros equipamentos urbanos como escolas, hospitais ou postos de saúde e delegacias; centros comerciais. Nos planos de desenvolvimento urbano das cidades e nos de saneamento, bem como nos planos diretores, tudo isso vem sendo perseguido há anos e parece ser o ideal da vida civilizada. Na verdade, o que se deve dizer hoje diante dos problemas que muitas cidades importantes e populosas estão enfrentando a cada período chuvoso é que esse ideal de vida civilizada está trazendo sérios problemas. No Brasil, São Paulo e sua região metropolitana são o melhor exemplo de um lugar onde o caos da urbanização se faz presente e lá está também, em escala ampliada, apesar de toda riqueza financeira e tecnológica disponível, o que parece ser o futuro das grandes e médias cidades do país em curto prazo, se o mesmo modelo for seguido. Há poucos dias, em Lisboa, cidade com urbanização de primeira linha, algumas horas de chuva provocaram inundações, alagamento de casas, prédios comerciais, cobrindo carros com água de enxurrada. Com aquecimento global ou não, o que se vê atualmente é uma sequência de casos de cheias em cidades onde a urbanização como é considerada ainda, merece elogios. Zoneamento urbano, ruas limpas e pavimentadas, parques e jardins, esgoto e água de chuva coletados e uma ausência: os canais de drenagem naturais e zonas de acumulação de água para recarga de lençol freático e reservação temporárias sumiram para dar lugar aos novos bairros. Países ricos como a Holanda, a Alemanha e o Canadá tratam de reconstituir riachos, córregos e rios urbanos, para que voltem a funcionar como receptores de águas de chuva. Aqui, em São Paulo , a Sabesp, com o programa Córrego Limpo, age preventivamente para evitar que esses drenos naturais importantes sumam na poluição ou aterrados. Bem, apesar da propaganda lulista e dos investimentos muito lentos do PAC 1, o Brasil ainda não tem o mesmo perfil dos países citados nem todos os Estados brasileiros podem utilizar os recursos que São Paulo usa. No entanto, não dá para esperar muito. As prefeituras, apoiadas pelos governos federal e estadual, precisam iniciar com urgência um processo de gestão integrada ativo para desenvolver, implantar e gerenciar os planos de desenvolvimento urbano e de saneamento de modo que pelo menos as cidades com mais de 200.000 habitantes passem a ter projetos e obras para que sejam executados sistemas de saneamento onde as condições de drenagem natural sejam preferencialmente respeitadas. (*) É diretor Nordeste da Abes.