Opinião
O buraco negro
Quando Napoleão chegou às portas de Lisboa no início de 1808,encontrou a mais atrasada das capitais europeias. A pauta da sociedade era totalmente ditada pelo mais profundo atraso, onde predominavam as correntes religiosas mais conservadoras, tanto que nos sermões erigia-se uma muralha de madeira para separar homens e mulheres no sentido de que não tivessem nenhum contato. Os iluministas franceses Voltaire e Diderrot, que então encandeciam o mundo da filosofia, eram perseguidos como hereges e seus livros queimados em praça pública. Os fervores religiosos eram tão exacerbados que a Ciência e a Medicina eram extremamente arcaicas ou inexistentes; entre outras aberrações: dom. José herdeiro do trono morreu vitimado pela varíola, porque sua mãe, dona Maria I proibiu sua vacinação, na concepção de que a vida estava somente nas mãos de Deus e que não cabia a Ciência interferir neste processo. Quando a Corte portuguesa fugiu apressadamente para o Brasil correndo das tropas francesas, trouxe cerca de 15 mil pessoas, na sua quase totalidade sobrevivendo à custa dos cofres públicos. Foi o primeiro grande inchaço da máquina pública brasileira. Em uma jovem nação ao norte, todo o entourage do governo norte-americano que então se tornava independente, mudava-se da Filadélfia para Washington e contava ao todo não mais de 700 servidores. A Corte portuguesa fez de tudo para que a sua colônia tropical se mantivesse ignorante e isolada do mundo. Ainda convivemos com o que parece uma herança maldita daquela época: o Enem deste ano conseguiu superar em ruindade o do ano passado, cujas provas foram roubadas. Concomitantemente a UNESCO revela que embora o Brasil invista o mesmo que a Itália e a Espanha em pesquisa nas universidades públicas o resultado em benefícios para a sociedade é irrelevante. Mas a esbórnia com o ensino público não fica aí, nem restrito aos grotões atrasados do País: em Brasília, maior renda per capita nacional e sede de onde se formulam os caminhos nacionais, os livros distribuídos nas suas escolas públicas descrevem eventos científicos bizarros -- como o átomo que ganhando elétrons fica positivo ---, que contrariam todas as leis da física conhecidas. Lula, inicialmente levou no deboche as denúncias sobre o Enem. Depois se recompôs a alardeou que ele será refeito. Os livros de Brasília que contrariam todos os postulados da ciência serão reimpressos. Os estudantes e seus familiares sofrerão ainda mais. A Viúva e os cofres públicos pagarão novamente dobrados o desleixo com que a coisa pública é tratada no País. (*) É médico e professor da Uncisal.