Opinião
Ejusdem Furfuris
Arnold Toynbee viveu na Inglaterra no século dezenove e formou-se em economia política pela Universidade de Oxford. Em sua curta vida de trinta anos (1852-1883) procurou criar um sistema que melhorasse as condições da classe trabalhadora da época. Ciente das dificuldades inerentes escreveu que ?o maior castigo para aqueles que não se interessam por política, é que serão governados pelos que se interessam.? De fato... A ignorância política se revela no alto preço a ser pago quando da cobrança de sua fatura. Algumas pessoas afirmam, às vezes até com certo orgulho, que não gostam e nem querem saber de política. Parecem cultivar esta ideia como uma espécie de mantra que os impede de se contaminar, mantendo-se à parte de um processo que julgam não só espúrio, mas também impuro. Ocorre que somos todos animais políticos, queiramos ou não, e nossas vidas estão diretamente ligadas às decisões tomadas em ambientes políticos. Daí a necessidade de participarmos do processo político já que ele define nosso presente e influencia o nosso futuro. Um governante ou administrador escolhido graças à revelia dos que se propõem a não decidir ou decidem por motivos meramente pessoais provoca males tão graves quanto um cupinzeiro. Corrói por dentro e quando menos se espera, o estrago por ele provocado já não tem mais solução. Da apatia política nasce o administrador que nada de construtivo realiza. Não havendo cobrança e crítica ao seu trabalho, ele não faz ideia do que significa administrar. Resultado: sofremos nós e sofrem as instituições. Como sociedade que se pretende organizada não podemos ficar à mercê daqueles que são motivados apenas pela vaidade e pela ambição. Quando isto ocorre somos todos igualmente responsáveis e assim nos tornamos ?ejusdem furfuris? (farinha do mesmo saco), filhos diletos da nossa omissão e do nosso desinteresse! Sêneca nos ensina que ?comandar não significa dominar, mas cumprir um dever? e esta não é uma missão para os vaidosos nem para os que cultivam a incúria e incapacidade de administrar. A nós resta então um só caminho a seguir e este caminho é o da prática política como um bem indissolúvel do exercício da cidadania. (*) É promotor de Justiça e professor da Ufal.