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Voltei cinquenta anos

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O dobrado ?4 dias de viagem?, de Antonio do Espírito Santo, transmudou-me para a Praça Deodoro e, nos poucos minutos de sua execução, revivi a juventude naquele logradouro. Os bigus que tomei nos estribos dos bondes, do lado contrário em que estava o cobrador, no percurso da própria praça, era como uma afirmação da capacidade de enganar. E as noites de domingo, aí sim, ao som das retretas com as bandas da Polícia Militar ou Exército, já taludinho, no afamado ?quem me quer? da Deodoro, quando as garotas rodavam a praça e os garotos ficavam ao longo do meio fio a paquerá-las. Um pulinho à sorveteria Gut-Gut, dava continuidade ao flerte. De repente, uma pausa e o maestro Florisjan Cahet da centenária Filarmônica Santa Cecília, de Marechal Deodoro, faz-me ver que estava no Instituto Histórico de Alagoas, no ?Concerto aos Domingos?, esse momento mágico que nossa querida Selma Britto, sob os auspícios do próprio Instituto e da Secretaria de E. da Cultura, proporciona aos admiradores da boa música. Mas o retorno à atualidade é breve. ?Pedacinhos do Céu?, de Waldir Azevedo leva-me à boemia, ao velho Bar do Relógio na praça dos Palmares, com o violão e a voz de um dos maiores boêmios de nossa terra: Marcus Vinicius. Mas, o bom mestre Florisjan não me deixa parar em um só lugar. Já me vejo em plenos salões do Clube Fênix, dançando ao som dos mais belos boleros como Cubanacan e Frenesi. Tempo em que se tinha de ir até a mesa da moça para fazer-lhe o convite à dança. Zé Moura, namorando Isadora, hoje casados, e eu, Juju, sempre abríamos as danças, recebendo elogios das senhoras mães que ignoravam nossa estratégia. Em vez de bebermos no clube, como íamos a pé desde casa, no centro, passávamos no bar do ?seu? Lucena na Rua Nova, e enquanto umas partidas de sinuca eram disputadas, algumas talagadas eram tomadas. Álcool necessário para o enfrentamento da situação e o consumo da noite. ?Vejam estes rapazes. Quando a orquestra inicia, eles abrem os salões. Não ficam bebendo para criar coragem?, diziam as madames. Época em que pedíamos aos céus para a orquestra tocar um ?pout-pourri?, demorando um pouco mais o aconchego do casal e evitando o clássico constrangimento do cavalheiro quando a música parava. Nessa hora de devaneio a música cessou e os aplausos insistentes da plateia do ?Concerto?, legaram-nos um prêmio maior. De pé, quase transformamos o auditório numa festa de carnaval, quando o ?Vassourinhas? explodiu dos metais. Voltei cinquenta anos, na comemoração dos cem da Filarmônica. (*) É bacharel em Economia.

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