Opinião
Vivas e f�rteis ra�zes
Publicada em nossa mais recente edição dominical, entrevista com o cineasta Cacá Diégues reafirma a importância das raízes culturais de uma comunidade. Criado no cosmopolita ambiente do Rio de Janeiro, na época em que naquela cidade fundiam-se os epicentros político, artístico e social do Brasil, o alagoano Cacá buscou algumas de suas mais inspiradas criações em sua (distante) terra natal. O elo não era a memória vivida, mas a enraizada lembrança das histórias e dos conceitos culturais alagoanos repassados por seu pai, Manoel Diégues Júnior, um dos mais expressivos intelectuais brasileiros nascido e criado nas Alagoas. Uma das obras cinematográficas mais emblemáticas da harmonização entre o universal e o paroquiano é Joana Francesa. Na película, dois ícones mudiais, ambos franceses, deslocaram-se até Alagoas, mais precisamente montando suas barracas na região de São Miguel dos Campos. Jeanne Moreau e Pierre Cardin não se cansaram de circular entre canaviais e currais, por estradas de barro, para produzir um belo filme onde está retratada uma dolorosa decadência, a da classe dos senhores de engenho, que muito marcou a história dos alagoanos. Mas a raízes de Cacá Diégues não demonstram sua alagoanidade apenas em Joana Francesa, ou Deus é Brasileiro, Bye Bye Brasil, Ganga Zumba, Quilombo. Um dos mais belos momentos da filmografia brasileira está num filme que, pelo mote, nada tem a ver com Alagoas, Chuvas de Verão, um poético quadro sobre a paixão no ocaso da idade; mas simples presença do ator Jofre Soares (em antológica atuação) denuncia, mais uma vez, a profundidade das raízes alagoanas na obra deste genial cineasta. Alagoas muito deve a alagoanos como os Diégues (pai e filho), preservadores de uma cultura local das mais ricas dentre os mais ricos Estados brasileiros.