Opinião
Visitando Jerusal�m n� 2
Era sexta-feira, dia em que os monges católicos saem em procissão pela Via Dolorosa, percorrendo o mesmo caminho feito por Jesus, quando, castigado pela injustiça dos homens, arrastou a cruz até o Gólgota. Três horas, em ponto, estávamos no local onde se erguera, outrora, o Pretório de Pilatos, de cuja escadaria foi Cristo, condenado pela turba de fariseus, a morrer crucificado. A emoção nos invadia a alma. Num momento imaginamos toda a cena! Podíamos ouvir o grito da multidão enfurecida proclamando, em delírio: ?Solta Barrabás! Crucifica Jesus?! E Pilatos, no seu juízo frouxo, entregou o inocente à condenação daqueles celerados. Logo se encheu o pequeno pátio de monges, freiras e alguns cristãos. Entramos pela Via Dolorosa e seguimos até a grande Basílica do Santo Sepulcro, parando nas várias Estações onde orávamos contritos e piedosos. Pensávamos na grande graça que Deus nos concedera, na felicidade imensa de pisarmos aqueles mesmos lugares onde Jesus passara no seu sacrifício, na sua dor! Depois de transpormos ruas estreitas e tortuosas, nos vimos diante de um enorme edifício encimado por uma grande cúpula e amparado por estacas de madeira. Era a Basílica do Santo Sepulcro, primeiramente construída por Santa Helena, mãe de Constantino. Foi destruída mais tarde pelos turcos e novamente edificada pelos cruzados. No último terremoto que abalou a região, sofreu muito e os ingleses estacaram-na toda para não cair. Transpusemos a porta ampla com o coração a bater de emoção. As igrejas orientais eram iluminadas apenas pelas chamas débeis das lamparinas, o que lhes emprestava um aspecto místico, aumentado pelo ar úmido e o cheiro de mofo que se desprende do ambiente mal-arejado. Na semi-obscuridade notamos uma comprida pedra estendida no chão entre quantidade de incensórios reluzentes. Aí Nicodemus untou, com óleos perfumados, o corpo de Jesus, antes de levá-lo para o túmulo, que fica mais adiante. Entramos pela pequenina porta de uma capela de fachada suntuosa, de onde pendiam inúmeros turíbulos e lamparinas dourados. A luz tênue iluminava um frontal de gosto bizantino. Vimo-nos no compartimento acanhado e rústico que antecede o sepulcro propriamente dito. É a Câmara dos Anjos, assim chamada porque quando as três Marias, no domingo da Páscoa, vieram embalsamar o corpo de Jesus, depararam-se com dois anjos postados à entrada desse cômodo, os quais lhes anunciaram a ressurreição do Senhor. No centro, protegido por um vidro, estava o bloco de pedra que fechava o sepulcro. Penetramos no minúsculo aposento em que se encontra a laje sobre a qual, há dois mil anos pousara o corpo de Jesus. Ao tocá-la lágrimas de emoção rolaram pelo nosso rosto! (*) É membro da Academia Alagoana de Cultura.