Opinião
O centen�rio de Rachel de Queiroz e o gen�ro
Através do passeio que o controle remoto permite, deparo-me com uma sessão do Senado que homenageia o centenário da escritora Rachel de Queiroz. Nas falas que se seguiam, o destaque sobre a precocidade da escritora que se revela aos 20 anos de idade com o livro O Quinze, uma referencia à grande seca de 1915. A sua obra é considerada pelos imortais da Academia de Letras e, com certeza, por tantos outros mortais como uma linguagem precisa, onde cada palavra, pela exatidão do seu emprego, revela a essencialidade do que se destinam e pautam os mais variados sentimentos de amor, de solidão, de liberdade e de morte. Rachel de Queiroz não pautou sua obra no universo feminino, foi universal nas temáticas que empreendeu em seus escritos; nem gostava de destacar sua eleição como a primeira mulher a ocupar a Academia Brasileira de Letras. Gostava do reconhecimento que essa eleição revelava para sua obra literária, nas personagens como Maria Moura e no livro Três Marias, que revelam a riqueza e a força do universo feminino, com todas as suas peculiaridades. Sua militância política no Partido Comunista custou-lhe três meses de prisão em São Paulo. Amargou também na militância a censura de seus escritos, motivo que a fez desfiliar-se do PCB. Foi então no exercício do jornalismo, além da construção de um acervo literário, colaborar para os novos caminhos que esse País vem trilhando e avançando. Antes de Rachel de Queiroz, outra mulher já tinha se aventurado para a admissão no mundo dos imortais. Foi Amélia Beviláqua, esposa do jurista Clovis Beviláqua, fundador da ABL. O debate naquele Panteão para justificar a recusa do ingresso da pleiteante foi fundamentado no artigo 17 do Regimento Interno, que tratava da condição de elegibilidade para a Academia: ?(....) os brasileiros do sexo masculino?. Tal imbróglio provocou o afastamento do jurista Clovis Beviláqua daquela casa. Foi solidário à causa feminista. Que Deus o tenha. Além da riqueza que esse ser mulher Rachel de Queiroz provoca e motiva para escrever, a oportunidade de revelar a importância da visibilidade que a linguagem permite, diante das considerações feitas para admissibilidade ou não de uma pessoa, é que me faz chamar a atenção para as formalidades que hoje de forma estratégica nós precisamos usar. Daí que peço aos senhores e senhores que sempre que fizerem uso da palavra tornem visíveis as diversidades do público presente. Viva Rachel de Queiroz! (*) É feminista.