Opinião
Promissa verba leve est!
Ah, Esopo e suas fábulas! No fim de semana me dediquei à literatura, como de costume, fugindo à áspera rotina da administração. Revisitei esse lendário personagem que viveu, hipoteticamente, na Grécia do século 6 a.C. e inspirou grandes autores, antigos e modernos, como o macedônio Fedro e o francês Jean de La Fontaine. Li dezenas de fábulas, todas elas ? como é próprio do gênero ? arrematadas por uma reflexão de fundo moral. Contou-nos o gênio, supostamente nascido na Etiópia, que um dia uma montanha imensa começou a contorcer-se, lançando gritos tonitruantes no ar. A montanha, como se estivesse sucumbindo às dores do parto, urrava e gemia, ao mesmo tempo em que se agitava tal um vulcão prestes a irromper em fumos e lavas. Diante dela, formou-se uma multidão atônita e amedrontada, convencida de que o monstro, logo, logo, iria expelir de suas formidáveis entranhas uma imensa cidade de pedra, a maior do mundo. Ficou ali, à espera do momento colossal, certa de estar assistindo ao que seria o maior espetáculo da terra. Depois de dias de estrondosos volteios, a montanha finalmente pariu... Um rato! Muitas vezes criamos falsas expectativas sobre acontecimentos de nosso interesse, quase sempre motivados pelos prognósticos de pessoas que pintam o futuro com as cores de sua fértil imaginação. ?Tudo será uma maravilha!?, apregoam os profetas de plantão, na esperança de atrair para si a aprovação da comunidade. Não é assim que acontece em períodos eleitorais? O candidato sonha acordado com a vitória nas urnas e não reluta em fantasiar a realidade, em avançar promessas irrealizáveis ou em apresentar propostas que não sabe se poderá cumprir. Quem nunca teve a oportunidade de administrar outra coisa senão a própria conta bancária não sabe quão difícil é a missão do administrador ? sobretudo no serviço público, onde as providências mais singelas têm de passar pelos tortuosos caminhos da burocracia. O despreparo orienta o destempero dos que criticam as ações dos adversários e se apresentam como o caminho, a verdade e a vida. Quem só administrou o interior de sua geladeira desanda a desmerecer os outros e a prometer o impossível quando postula o comando uma instituição, crente de que os recursos disponíveis são infinitos e tudo corre na administração pública como no melhor dos mundos. Ledo engano! A montanha tem espasmos de gigante, mas no fim, diante da realidade nua e crua do dia a dia, amofina-se e, em lugar de produzir ?o maior espetáculo do mundo?, presa de sua cegueira e inexperiência, acaba por deixar aos crédulos a mesquinha herança da decepção. A vida tem mostrado que a mente dos eternos insatisfeitos vive em permanente estado de cobrança, por mais consciente que seja o administrador. Incitam os outros contra o que acusam ser indolência e má vontade. Mesmo os desbravadores serão alvo das diatribes desses pregoeiros da discórdia. Eles, e somente eles, são capazes de levar o povo ao paraíso, porque seus dedos milagrosos transformam a escassez em abundância. O bom administrador reparte com sua gente o vinho e a água disponíveis; o nefelibata, acorrentado em teorias delirantes, promete converter a água em vinho. Uma das fábulas que li fala de um homem doente, perto da morte. Os médicos já lhe haviam tirado qualquer esperança de cura. Desesperado, ele prometeu sacrificar cem bois em honra aos deuses se se restabelecesse. A mulher então lhe perguntou como ele, tão pobre, teria dinheiro para pagar a promessa, ao que ele respondeu: ?Depois da cura, como poderão os deuses me cobrar??. Moral da história: é fácil fazer promessas ? concluiu Esopo ? quando sabemos que não vamos cumpri-las. (*) É procurador-geral de Justiça licenciado.