Opinião
A arte de saber viver
Outro dia li um texto que merece reflexão e que tento reproduzir de memória: são tantos os problemas e envolvimentos do dia a dia, que, por vezes, a pessoa esquece que a vida não é o tempo que se passa nela, mas o que se faz enquanto o tempo vai passando. Como a vida é feita de instantes, não deve e não pode ser medida em dias ou meses, mas em minutos e segundos. O instante que está sendo vivido deve ser aproveitado sempre, isolando sempre que possível os momentos de tristeza e amargura, valorizando os momentos alegres e felizes. Quem assim o faz, aproveita bem a viagem terrena que estamos realizando. Apesar de tantos avanços no campo da Medicina, mais informações à disposição, uma considerável diminuição das distâncias pelas tecnologias de comunicação, estamos muitas vezes diante de doenças, moléstias ou enfermidades para as quais não são encontradas soluções. Ver definhar um ente querido à nossa frente, sem terapêutica ou cirurgia que o cure, é desafio à sensibilidade, dor que dói e maltrata. Uma carta recebida de uma amiga médica descreve bem essas angústias. Creio que o leitor concordará. Diz: ?Pior ainda quando o prognóstico da doença é desfavorável. Olhares recaem sobre nós, como se detivéssemos a chave da salvação. As cobranças são inevitáveis, mas ninguém pode avaliar quão triste é a sensação de impotência... Meu avô faleceu, aos 90 anos de idade, no leito de um hospital?. Continua: ?Passados tantos anos, esse mês de dezembro me convida a refletir sobre minha condição de médica. E eu me lembro, com carinho, do meu avô. E o vejo sorrindo e em paz por ter cumprido sua etapa evolutiva. Através dele eu descobri o gosto pela escrita. Ele também me fez humanizar ainda mais os meus atendimentos clínicos. Com a experiência, eu descobri que um antibiótico pode curar o físico, mas não é capaz de sanear a alma. Que um carinho pode ser tão potente quanto um analgésico e seu efeito creiam, bem mais duradouro. Que, quando só resta aguardar a natureza seguir o seu rumo, nossa simples presença pode amenizar a angústia que o futuro incerto traz. E, por fim, aprendi, que, confiando na força maior que rege o universo, é possível, sim, aproveitar cada momento da vida, até mesmo quando alguém que a gente ama gravemente adoece.? É uma arte saber viver. (*) É médico e ex-secretário de Educação e de Sáude.