Opinião
Poeta ressuscitado
ANTONIO SAPUCAIA * Orador excelente, poeta, bom bprosador e proseador, Diógenes Tenório Júnior é uma figura humana que se destaca no meio de qualquer multidão, não apenas pelo tipo espigado que é, mas principalmente, pela facilidade que tem de puxar e alimentar conversa. Amante da literatura, quando se propõe a qualquer realização nesse ramo quase não sabe esperar; torna-se ansioso, quer logo o resultado. Foi assim com ?Murici?, ?Clamor das Pedras? e não foi diferente com ?O Poeta da Saudade: Tito de Barros ? Vida e Obra?. Quando se esperava que ainda estivesse catando dados e ouvindo pessoas acerca do biografado, este já aparece quase de corpo inteiro, enfronhado numa capa bem planejada, resultado de um trabalho gráfico telogiável. O resto é poesia, e da boa. Numa linguagem escorreita, gostosa de ler, Diógenes se propôs a ressuscitar o nome do conterrâneo que jazia no porão do esquecimento, buscando a melhor forma de recompor a figura do ser humano e do poeta. As inserções que faz em alguns trechos do livro, dando a palavra a Mendonça Júnior, são de uma beleza cativante; são uma espécie de sal que complementa o tempero pronto para aguçar o apetite do mais exigente degustador de ternura e lirismo, nutridores da alma e do espírito. No mesmo diapasão, é o prefácio de Francisco Valois, erudito, objetivo, atraente. Nele, pontua com muita propriedade o esquecimento que tem sido dispensado à historiografia literária de Alagoas e aos vultos representativos da nossa cultura. Não apenas da nossa cultura ? acrescentaríamos ? mas da Política, da História, da Medicina... Costa Rego, por exemplo, era um desses vultos que estavam alistados na legião dos olvidados, o que nos estimulou a publicar um humilde ensaio biográfico, na esperança de fazê-lo lembrado ou menos esquecido. Fernandes Lima, que governou Alagoas por duas vezes, tem o nome inesquecido graças a uma avenida de Maceió, diuturnamente xingada diante dos atropelos enfrentados pelos que nela transitam. Álvaro Correia Paes é outro que merecia ser lembrado. Jornalista, diretor da Imprensa Oficial, secretário da Fazenda do governo Osman Loureiro, prefeito de Itaguaí, no Estado fluminense, prefeito de Palmeira dos Índios, deputado federal, governador de Alagoas, é hoje um notável esquecido, até mesmo em Palmeira dos Índios, sua terra natal, onde achamos que não é lembrado nem mesmo como criador de aves, atividade a que se dedicou no ostracismo político. Tito de Barros estava entre esses deslembrados. Graças à sensibilidade do conterrâneo que nasceu acalentado pela sua poesia, através da voz protetora da avó, temo-lo redivivo, além de ver-se arregimentada toda a sua obra poética, para deleite dos que amam a boa poesia. No meio de tanta poesia quasimodesca que a modernidade nos há oferecido, muitas delas sem pé nem cabeça, deixa-nos enternecidos ler ?Mensageira?, ?Seu Nome?, ?Mãe?, ?Só?, uma produção que foi deletada no computador da memória alagoana e que agora está salva pela aguda visão intelectual de Diógenes Tenório. Pode-se dizer que a poesia de Tito de Barros lida em voz alta, faz bem aos ouvidos; lida em silêncio, faz bem à alma; recitada, é enlevo. Os menos informados diriam que Diógenes Tenório foi parcimonioso em relação à vida de Tito de Barros, preocupando-se mais com a obra poética. Diz que foi ele prefeito de Murici e deputado estadual, sem acrescentar uma linha em torno do seu desempenho em tais atividades. Por experiência pessoal, conhecemos as dificuldades com que se deparou e com que se deparam os pesquisadores que se dispõem a tal mister. Arquivos desapareceram; documentos são incinerados irresponsavelmente; cartas ficam sem respostas, impossibilitando, como no caso, um trabalho mais profundo, mais detalhado. O mais importante, porém, é termos agora ao alcance das mãos e dos olhos a produção poética de Tito de Barros, que nos chega através de um trabalho bem elaborado, produzido por quem entende e gosta de poesia, cuja obra tem o condão de fazer ressuscitar o poeta da saudade. (*) É JUIZ DE DIREITO