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Opinião

Os miser�veis na vers�o alagoana

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Da janela diviso uma criança tangida pela noite. Ela toca sua infância sem a coexistência de valores, sem o devido preparo para o vir-a-ser. Depois de vários dias a observá-la, finalmente, tomo uma atitude. Chego de mansinho. Temo magoá-la. Quero me desculpar por ela ser assim enfeada por minha passividade. Descubro que não frequenta escola, apanha do padrasto, e que de dia vende chaveiros para os turistas. A noite é flanelinha. Gostaria de ser um jogador de futebol. Nem se dá conta que já joga nos campos da vida, driblando um destino incerto. Minha consciência maternal dói ao vê-la a cada começo de noite correndo de um lado a outro da avenida com a flanela em fiapos, a alisar o bem- sucedido sonho dos outros, sobre rodas. Mendigando migalhas de reprodução dos sanduíches ianques. Ela grita interjeições subalternas que, inquietam a minha politização classe média, e, a minha formação religiosa de colégio de freiras. Esses sons me compelem a uma ação. ? Ah! doutor tem um trocado aí? ? Ô, patroa! Tem uma moedinha? Olhando-o, depreendo que o substancial de sua quase vida, ainda não é o suficiente para suscitar uma indignação com a força do social, para um levante. É uma absurda a constatação. Com quantas crianças jogadas se faz uma insurreição? Que sonhos carrega aquela pálida vida naquele corpo esquálido? Seriam tísicos também os seus anseios? Como aproveitar a habilidade de suas mãos ressecadas, que vivem a correr submissas, para fazer reluzir metais que, em alguns casos, seus donos não hesitariam em esmagá-lo? Teria sensibilidade para música? Percorreria teclados e cordas? Manusearia pincéis com tamanha maestria? Teria a habilidade de um cirurgião, meu Deus?! Como posso anestesiar os sentidos, como ficar amnésica a vida de garotos miseráveis amarelos, sujos e esfomeados que vejo, quando as estrelas começam a se apresentar a contemplação. Repasso assim, o que consegui juntar dos fragmentos de sua existência: em suas rotineiras manhãs, sob um sol de aquarelas, vende chaveiros. É mais que uma atividade, é uma metáfora. Vende possibilidades de não perder a chave. Sim, pois um chaveiro é isso; objetivamente, é não perder a chave. Que ironia! Vende o que perdeu; a chave para abrir um mundo justo, a sua conectividade com o humano. A inclusão que ele tem direito e nem sabe reivindicá-lo. Cogito que não há nenhuma hipótese de felicidade, naquela infância exilada. Sua pele é cunhada com a aspereza do descaso, seu meio sorriso sai por crateras escuras, seus cabelos são eriçados, sem a maciez de mãos maternas a acariciá-lo, seus braços são tatuados por impetigos anelados, em suas pernas vejo chagas dos caminhos percorridos e os seus pés são bem calejados pela carência da vida. Quero o modo imperativo dos verbos empregados em sua fala. Faça-se, transforme-se. Recolham-se os olhos abaixados. Fite-se por todas as faces em igualdade. Teremos um feliz natal quando assim pronunciares. (*) É estudante de Jornalismo.

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