Opinião
As senhoras das �guas
A praia estava colorida de forma diferente e as caravanas chegavam o tempo todo, saudando com o pipocar dos fogos, ao som dos atabaques e dos cantos entoados, no universo esparramado num verde e azul do mar da Jatiúca. Todos comemoravam o feriado do dia 8 de dezembro, que para os católicos é o Dia de Nossa Senhora da Conceição e para os umbandistas é a comemoração de Iemanjá. Os escravos proibidos de cultuar seus orixás buscaram referências nos santos da Igreja Católica, assim Iemanjá é Nossa Senhora da Conceição, como São Jorge é Ogum. O que importa é que temos todos os anos mais um dia que reforça a fé, a esperança, os agradecimentos às graças alcançadas e os novos pedidos de bênçãos. Grandes círculos de homens e mulheres dançavam e cantavam, todos e todas se esmeraram nas suas vestimentas com o brilho do cetim, babados, rendas e turbantes. As cores que dominavam eram do ouro, amarelo, azul celeste. O branco pincelava e harmonizava nos agrupamentos. Todos estavam lindos com suas roupas de gala para carregar as oferendas: muitas flores, perfumes,espelhos e comidas; e assim as pequenas canoas majestosas com a imagem de Iemanjá, linda e imponente, migravam para o domínio do mar. Num desses barcos, chamou-me a atenção duas imagens de Iemanjá, uma vestida de amarelo e outra de azul,pois sempre vi Iemanjá vestida no seu manto azul. Fiquei pensando no significado das cores, pois também os círculos de gente estavam distintos assim, rodas de ouro e azul celeste espalhadas nas areias da praia. A curiosidade me fez interpelar um cidadão elegante em sua túnica bordada e brilhosa, que passava próximo ao local da oferenda: Por que as duas cores vestiam Iemanjá? O moço apresentou-se, era Pai Bará, que falou das águas do rio e das águas do mar, do amor e da bondade de todas as mães, da representação da água doce e da água salgada nas imagens representadas. Ouvi o discorrer da cultura afro e me apercebi da dimensão da homenagem para a mãe natureza. A água é a nossa grande homenageada, na sua forma feminina mais bela e vaidosa. Em tempos de aquecimento global, em que geleiras se derretem e temperaturas se elevam, acrescentemos às oferendas nossos pedidos de desculpas pelas agressões que temos feito ao meio ambiente e à mãe natureza, senhora de todas as águas doces e salgadas. Saudações odó iyá! (*) É arquiteta.