Opinião
Os tribunos
Os tribunos são os enamorados das palavras. Sem eles não haveria a beleza da argumentação, a empolgação pela verdade, a seta emocional que atinge o coração dos homens. Nasceram para proclamar os sentimentos, erguer as paixões humanas e marcar os instantes que celebram a vida. Grandes orações impulsionaram, em várias épocas e em diversos campos, os destinos dos povos. Ajudaram a construiras reformas políticas e sociais. Traduziram os movimentos ideológicos vivenciados pelas nações. Levantaram ideias e impregnaram a alma do povo pela esperança. As palavras de Winston Churchill, exemplar democrata e estadista britânico, foram decisivas para soerguer a moral de sua gente, na luta aliada e sem tréguas contra o totalitarismo que ameaçava a paz mundial. Quanto ao povo norte-americano, sempre foi sensível a eloquência de seus líderes. Eles conseguiram mobilizar a consciência e as energias dos diversos segmentos da sociedade em prol de sua independência e liderança econômica. A eloquência judiciária ocupa uma posição de relevo na história da humanidade. Tem em Enrico Ferri, sua figura grandiosa. Personalidade extraordinária,espírito guerreiro, mestre de várias universidades italianas. Orador fluente e torrencial, de gesticulação comovente, de argumentação precisa e esplendorosa. Uma das suas defesas empolgantes e memoráveis, foi a do passional Carlos Cienfuegos que, movido por ciúme, eliminou a vidada amante, a bela condessa Hamilton, mulher sentimentalmente inquieta e de temperamento indomável. Trabalho transformado em um livro, registro jurídico-penal de todos os tempos. No Brasil, Evandro Lins e Silva, símbolo da advocacia nacional, espelhado nas lições de Henri Robert, René Floriot, Maurice Garçon, desenvolveu a defesa do convencimento, da retórica serena, da linguagem útil e equilibrada. Romeiro Neto, o tribuno da década dos grandes julgamentos. Na defesa de Olga Suely Dantas, do Tenente Alberto Jorge Bandeira, de Helbe Mascarenhas de Moraes, de Gregório Fortunato e de outros famosos casos, engrandeceu a oratória forense pela análise das provas, pelos apelos inteligentes e citações prodigiosas. Os tribunos sabem que as palavras e os gestos não se perpetuam ao longo do tempo. Daí o vigor dos instantes vividos, a exaltação dos sentimentos, o valor estético das orações. Assim, os argumentos permanecem, as emoções plantam ideias e a história cultiva suas luminosas lembranças. (*) É advogado.