Opinião
A mais desprotegida entra
A assistente social Gorete entrou no miserável barraco da Levada para avaliar a criança que seria candidata a uma das 25 vagas do primeiro ano da escolinha Instituto Cidadão. Disputando com 750 outras, tendo em comum a todas a convivência com a absoluta miséria e a total falta de perspectivas. A criança estava disputando no chão com uma voraz ratazana um amendoim. Para piorar ainda mais o tétrico quadro,a mãe escondia-se em um canto com a mão amputada, vítima da ação dos traficantes de drogas que dominam a região. Dalva, a diretora, todo início de ano vê as mães abarrotarem as portas da escolinha, ansiosas para tentar matricular seus filhos. Por mais que se façam apelos que a escolha das 25 crianças será feita em visitas nos próprios domicílios, as mães anoitecem a amanhecem o dia previsto para a seleção nas portas da escolinha. Mas a escolha será feita casa por casa, barraco por barraco: as 25 crianças mais desprovidas, mais pobres, mais desprotegidas, mais miseráveis ? as mais carentes entre as carentes serão as escolhidas. Na escolinha as crianças passam grande parte do dia, além de estudar com professoras comprometidas em lhes ensinar a ler, a escrever, a tabuada, a informática e os esportes,se alimentam e também apreendem a conviver em harmonia com seus semelhantes, uma dádiva divina em uma região onde impera a verdadeira lei do cão. No sábado passado fomos à escolinha, onde as crianças de todas as quatro turmas, perto de 130, fizeram uma apresentação natalina para os velhos companheiros de caminhada da orla, muitos dos quais cederam á emoção. Detalhe: para cada turma foram entregues duas cestas básicas, as crianças contempladas ganharam por um único critério: ser as mais comportadas de cada turma. Ao receberem as cestas,as crianças choraram como se recebessem o melhor dos brinquedos. Este belo empreendimento, tocado bravamente por voluntários que o mantém sem um tostão de recursos públicos, está situado a não mais de 700 metros do Palácio dos Martírios, onde o governo do Estado defronta-se com uma trágica realidade: em Alagoas temos o pior nível de ensino do País e o maior nível de violência. Estas crianças estão sendo salvas da tragédia da deseducação e também do apelo da criminalidade. Os que as mantêm dão um real exemplo de quem pratica a verdadeira solidariedade todos os dias do ano e não só fugazmente nesta época natalina. Estas crianças recebem o que inspirou Dionísio Catão: ? Nas circunstâncias adversas, não percas a coragem;/ Guarda a esperança: só a esperança não abandona o homem, mesmo na morte?. (*) É médico e professor da Uncisal.