Opinião
Impress�es de Lisboa em dezembro
A mesma azáfama de qualquer cidade grande. Gente indo e vindo, correndo, entrando e saíndo. Gente muito velha. Velha demais. Como se vivessem eternamente como as árvores de caules grossos plantadas em jardins públicos. O tempo frio carrega nas cores sóbrias, o preto, o cinza o bege numa certa melancolia, tristeza talvez. Algo que só o Fado explica nesta paisagem de chapéus, boinas entre os respingos invisíveis da manhã. Depois vem a neblina densa cortando a cidade amortalhando as ruas. Onde estão as crianças desse lugar? Onde as esconderam? As procurei por toda parte e não as vi. Silêncio de vozes em multidão aflita no metro( não metrô) a dentro, descendo escadas subindo outras. O frio cortante da cave que se abre a entrada ardendo no rosto, ressecando os lábios. O portão se recolhe por uma lambida do bilhete do metro. Passa-se apressado. Do outro lado o ronco alvoroçado do comboio. É embarcar ligeiro e olhar pelo vidro a pressa de parar quase no mesmo instante. Para! Três ou quatro toques ritmados e novamente se vai batendo a porta. É tão difícil não se conter pelo alumbramento da urbe. A neblina deletéria esconde os detalhes, os adornos, as portas e janelas. Um pombo voa solitário e pousa no braço da estátua indiferente e austera. A fonte ainda tem coragem de jorrar água tão fria a essa hora da manhã. Não há quem aguente tocar o mármore frio, queimando como se quente esteja. Resta caminhar. Lisboa parece predestinada a diversidade étnica. A diversidade que buscou um dia na aventura de vir ao Brasil. É gente de todas as raças(mas principalmente africanos) andando simultaneamene para lá e para cá, pelas calçadas de pedra. Pedras pequenas desenhadas, traiçoeiras e desniveladas, fácil de escorregar e cair no lençol tenro do orvalho que ainda resta. É preciso estar atento. Não sei como as mulheres andam com seus saltos finos. Ando mais e encontro Fernado Pessoa, atento, sentado como sempre em sua cadeira, mesinha posta, outra cadeira ao lado vazia. Convite a sentar. Ouvir um poema. E ele me diz: ?Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e se tornar um autor da própria história. É saber falar de si mesmo. É não ter medo dos próprios sentimentos? Lá dentro o cheiro ativo de café. Café a Brasileira, letreiro pequeno, maldosamente escondido pelos ombrelones do passeio. Lisboa é muito mais! (*) É escritor.