Opinião
Nossa visita a Bel�m
Entramos pela porta de Santo Estevão, o primeiro mártir do Cristianismo, morto a pedradas quando tinha quinze anos e fomos ter à Igreja de Santana, erigida pelos cruzados no séc. 12, sobre a antiga morada de São Joaquim e Santana, pais da Virgem Maria. O templo cristão foi transformado por Saladino em mesquita, passando depois, à igreja grega. Seu ambiente simples nos encantou. Lá, nos subterrâneos, vimos um pequenino e rústico cômodo que ainda resta do lar que viu nascer a Santa Mãe de Deus. De lá partimos para a vizinha cidade de Belém. No caminho, paramos alguns minutos para ver o Túmulo de Raquel, esposa de Jacó, em troca do amor de quem este trabalhou quatorze anos para Labão, seu sogro. Ao longe, sobre uma colina, avistamos Belém. As cúpulas e torres da velha Igreja da Natividade destacavam-se entre o velho casario de pedra da lendária cidade. Na elevação fronteira, mostrou-nos o guia o ponto de onde os pastores avistaram a estrela anunciando a chegada do Salvador. A Igreja da Natividade foi construída em 325 por Santa Helena, mãe de Constantino. É a mais antiga do mundo cristão. Quando os persas invadiram a Palestina, os monges reduziram sua grande porta a uma pequena entrada, à conta quase exata de um homem, para que os invasores não a transpusessem a cavalo, como de costume. Os persas só não a destruíram porque vendo uma pintura em que apareciam os Reis Magos, vindos da Mesopotâmia, com trajes persas, julgaram-na um santuário de seu povo. O edifício, em estilo bizantino, apresenta interessantes mosaicos. Os turcos tiraram todo chumbo que revestia o teto, usando-o na fabricação de material de guerra. Sendo a igreja grega, o altar mor está virado para o interior. Descemos por uma escadinha em espiral e fomos ter à gruta em que, numa noite fria de inverno, Maria deu a luz ao Nazareno. A lapa, ornada de turíbulos, lampadário, ouropéis e sanefas de brocado, é tão enfeitada que com dificuldade nos evoca o estábulo simples, porém cheio de suave poesia, no qual Maria se abrigara com São José. Era a época do senso e a cidade se encontrava repleta de pessoas. Sem encontrar uma única hospedaria em que passar a noite,recolheram-se num estábulo. A manjedoura que serviu, na emergência, de berço para o pequenino Deus, não mais existe. O desejo de louvar a Deus e a preocupação de preservar da destruição do tempo os lugares sagrados, cobrindo-os com igrejas, mármores e metais, embora que bem intencionado, tira-lhes o cunho de autenticidade que realmente sensibiliza. (*) É escritora e membro da Academia Alagoana de Cultura.