Opinião
Luzia
Luzia era negra. Eu gostava dela. Sua pele era macia e cheirosa. Cabelo liso e brilhante. Trabalhava na casa de um professor de português ali perto da Praça do Centenário. Homem sério e direito, já além do seu tempo, sabia da importância da leitura e educação. Viúvo, pai de uma filha separada que vivia em sua casa, tratava Luzia como uma sobrinha. Luzia falava bem, diferente de suas colegas de convivência. Não me lembro da cor dos seus olhos, mas da sua boca sim. Boca de beijo sugado, lambido. Dos passeios das línguas brigando. Falar com ela era bom, fácil. Era instruída, atualizada, agradável. Lia, e dizia ao meu ouvido, que queria fazer direito. Pra mim já tava fazendo, ali mesmo. Tudo direito, certinho, sem pressa. Trabalhava, e estudava de noite com o professor. A roupa leve que dançava no corpo com seu rebolado discreto, realçava suas formas negras tão lindas. Princesa Africana não haveria tão bela e sensual. Ela gostava de mim. Eu era o seu menino. Tinha dezoito e ela vinte e quatro, anos por ai. Mas não era só minha. Gostava da vida e das estrelas. Ela era mais. Mais dengosa, mais fogosa, mais amada. Sabia que de nos estudantes, não podia esperar nada alem do nosso amor viril e juvenil, e nem queria. Semeava e nos dava com ternura o que tinha de melhor, seu corpo negro, de ébano, uma perola negra. Ah como eu gostava de fungar no seu pescoço. Pernas esbeltas. Às vezes só passeávamos de carro, na Kombi. Falávamos do futuro de cada um. Eu do meu, ela do dela. Juntos, não. Luzia gostava de ser o que era, estava feliz. E estudava mais e lia mais. Seu corpo, natural, parecia malhadissimo. Seios da globeleza. Aniversario dela foi uma festa. Quatro amigos. Cantamos parabéns em um barzinho la na praia da Sereia. Acho que eu era o seu favorito, sempre fui. Tomamos uns runs com ela e mais duas amigas, e respeitosamente, naturalmente, voltamos para casa. Rolou nada não. Só amizade. Vocês entendem isso?Pois é. Era e foi assim. Com as outras era diferente, tanto eu quanto os outros. Decentes, mas sem esse carinho. Achava o máximo o contraste entre-nos. Como já disse o poeta: no apolegar das tetas; no entrelaçar das coxas; nos chamegos, nas caricias do amor; era tudo em preto e branco, misturado. Nos largos bancos da Kombi, nos banhos de mar noturnos, pelados, parecia até que meu traseiro branco e magro refletia a luz da lua. O dela não. Lindo, discreto, em pé, redondo, tão belo quanto o mais belo. Ufa, ufa. Perdemos contacto depois. Eu já tinha vinte anos. Fui estudar fora. Outras vieram depois, aqui, e la. Cada qual com seu jeito. Amei a todas, mas Luzia nunca perdeu seu espaço. Voltei três anos depois. Ainda lhe procurei, mas depois deixei. E se estivesse mudada?Casada? Fiel? Podia não ser mais ela. Deixei que a sua imagem, as suas lembranças ficassem intocáveis, e assim imortais em minhas lembranças. Ah Luzia.. (*) É engenheiro civil ([email protected]).