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Os tesouros natalinos

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Lembram-se do Betinho?Aquele magrinho bom caráter, irmão do cartunista Henfil?Mesmo acometido e maltratado pela AIDS, não abandonava sua militância solidária, tanto que lá pelos idos de 1996, quando não existiam ainda os bolsas família e outros programas assistenciais, levantou a bandeira do Natal sem Fome, quando entre outras providências procurou o que existia de melhor na intelectualidade nacional e pediu a cada um deles um conto com tema natalino. Daí surgiu a obra ?Contos para um Natal Brasileiro? revertida em benefício da sua cruzada. Guardo esta relíquia carinhosamente, ela hoje é apenas um velho e esmaecido volume, mas reúne um tesouro: alguns dos mais admirados escritores nacionais transcreveram ali as suas impressões sobre o Natal. Lá, podem-se ler autores que por ordem alfabética vão de Antonio Callado a Rubem Braga, num total de 16 craques da nossa melhor literatura. É um exemplo eloqüente de que Arte e Solidariedade, mesmo quando praticadas isoladamente, são a mesma coisa: um gesto fecundo de amor à vida. Talvez alguns se surpreendam com a existência de uma produção de contos nacionais ancorados no ambiente natalino, como nos sentimentos e nas expectativas geradas nesta época. Por diversos e contraditórios, espelham o que sentem os nossos melhores intelectuais sobre o assunto. Intencionalmente, introduzem-se contos, como ?O Outro?, de Rubem Fonseca e ?Segundo Nego de Roseno?, de Antonio Torres, nos quais não há nenhuma referência ao Natal, mas mesmo assim as evocações da solidariedade e da esperança surgem como temática principal. Os trabalhos reunidos nesta edição mostram o vigor do conto brasileiro, mesmo quando vertidos em torno de uma temática única. Não sei bem por que, todos os anos nesta época pego este livro e releio alguns dos contos,como o de Carlos Drummond de Andrade,?Este Natal?, onde o próprio Papai Noel é um larápio fantasiado de bom velhinho somente para roubar os consumistas. Talvez esteja procurando as emoções perdidas naqueles natais quando minha mãe estava viva e nos contagiava com sua amável e inabalável fé, sua doçura, sua preocupação com o bem estar de todos e a sua permanente e extremada solidariedade com todos, principalmente com os mais desafortunados. Nas nossas noites natalinas não existiam troca de presentes, nem celebrações e glorificações de consumo ? só afeto e carinho. Mas, como sou um sujeito de muita sorte, hoje, tenho na Ivanelza uma segunda mãe, que me acalenta nestas noites natalinas, nas quais as lembranças nos dominam e são sempre muito mais fortes que o vinho. (*) É médico e professor da Uncisal.

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