Opinião
No dep�sito de desencanto e do alheamento
A incumbência recebida é procurar um personagem para humanizar uma matéria jornalística. Qualquer personagem, de livre escolha. A recomendação é um olhar acurado, capaz de capturar no cotidiano o inusitado, o que causa estranheza. A escolha recai sobre um asilo. Nada mais humano do que vivências recolhidas, desterradas, legadas à mercê dos sucessivos dias, até que, a hora final chegue e as leve, com todas as marcas do tempo. Incursionar pelos corredores de um asilo é percorrer por caminhos inóspitos, sem os sons das casas da infância, sem os cheiros da cozinha, sem varal no quintal, sem redes na varanda, sem comadres que ofertam potes com doces gentilezas, sem um cachorro qualquer, circulando em meio a toda família e sem um rádio ligado ecoando vozes pela casa. Um só personagem para ilustrar a matéria, uma singularidade. Lá se percebe todos tão assustadoramente iguais. São faces com peles sulcadas profundamente, dobradas e redobradas como origamis, olhares perdidos, opacos, que tentam enxergar por meio de grossas lentes, a vida lá fora. Cotidianos são mirados por grades que segregam os que vigorosamente tecem os fios da vida e os que, agora, já não se lembram de se agarrar a uma única linha vital. Não há músculos rígidos para sustentar as razões, as paixões e os desejos, estão todos entregues, vencidos e rendidos ao acaso, embora, gentilmente, assistidos por cuidadores com afetos treinados. Nos aposentos, a simplicidade, como a síntese da vida. Uma cama, um criado mudo e uma cadeira de balanço. Na cabeceira, nenhuma foto de filhos ou netos. Na parede uma cruz presencia os dias regados a sopas, sucos e papas, e sente o exalar dos cheiros do abandono e da solidão. Um raio de sol passa espremido por uma veneziana, anunciando o calor da vida. Por lá, seres humanos presos na imobilidade dos corpos flácidos, que se fecha em conchas, curvados, sem nenhuma exasperação, nenhuma objeção. Parecem navios atracados ao cais, à beira da vida, submetidos à clemência dos dias. Os traços físicos, de todos, gritam, tristemente, as semelhanças. Faces acuadas pelos sucos que rasgam histórias de vidas. Passos engessados desaceleram marchas de existências. Olhares vagantes parecem fazer recortes no tempo, para as pausas providenciais. Ali, a agonia do silêncio fala do desafeto, denuncia o odor purulento de escara, disfarçada em aromatizantes. Como adjetivar, uma vida assim, rumo ao encerramento, em um depósito de indiferença? (*) É estudante de Jornalismo.